5. A loja de instrumentos

Junho 14, 2009 at 11:16 pm (Hakagure Academy, Kyou Kara Maou, Terra)

No dia seguinte, logo após o café da manhã, Melissa e Samuel se encontraram no ponto de ônibus que levava à cidade, conforme combinado. Os dois conversaram animados durante todo o caminho. Sam contara como fora difícil se adaptar às diferenças da Terra e diversos ‘foras’ que deu por se deparar com um mundo diferente. Melissa achou tudo muito engraçado, como crescera entre culturas diferentes não teve grandes dificuldades. Ao chegarem à cidade, Sam insistiu em parar em alguns lugares no caminho da loja de instrumentos musicais. Eles gastaram quase duas horas vendo CDs, DVDs e procurando por jogos de videogame. Depois disso foram almoçar em um restaurante local, onde Mel percebeu pela primeira vez a diferença clara entre Sam e Günter. Na escola, Sam sempre era sério, compenetrado, atencioso a tudo que acontecia ao redor, assim como Günter sempre se apresentou; mas agora ele se mostrava muito mais descontraído e divertido, quase como se outro Sam estivesse aparecido. Melissa divagou um pouco pensando se ela também não seria um pouco assim, uma pessoa diferente a cada ambiente que freqüentava, mas logo foi trazida à realidade por Sam. Depois do almoço os dois passaram em frente a um fliperama onde Sam insistiu em mostrar as habilidades que adquirira ao desvendar as máquinas no ano anterior, somente depois disso foram à loja de instrumentos.

A vitrine da loja não era muito grande, mas ao entrar Melissa se deparou com um paraíso de instrumentos, acessórios e livros de música. Ambos seguiram pelas prateleiras cheias onde Sam mostrava diversos livros de composições. Poucos minutos se passaram desde que entraram e um som de piano começou a vir do fundo da loja.

- Noturno em Re bemol? – Perguntou Melissa.

- Sério? Percebo que é um Noturno, mas não consigo distinguir assim.

- Acho que é um dos noturnos de Chopin.

- Vamos lá ver?

Os dois seguiram ao fundo da loja e se depararam com um rapaz ao piano. Os dois se surpreenderam ao reconhecer o rapaz de cabelos claros e escuros do Clube de Música, entretanto nada disseram, apenas escutaram.


Ao fim da apresentação, Samuel e Melissa aplaudiram e o rapaz finalmente percebeu que não estava sozinho.

[Sam] Isso foi maravilhoso Josh, eu não sabia que tocava piano, achei que seu mundo era o violoncelo.

[Josh] É, mas de vê em quando gosto de variar. O que fazem por aqui? Não me digam que estão tendo um encontro?

[Sam] Não seja idiota!!!! – Exclamou encabulado – Essa é a melhor loja da região, trouxe a Melissa para conhecer.

[Josh] Então já que é assim… – Disse se aproximando de Melissa, pegando-lhe a mão e dando um beijo – Joshua Gerwinski a seu dispor, mademoiselle.

Mel corou e sorriu sem graça. Sam, com as orelhas um pouco avermelhadas, apenas olhou nervoso.

[Josh] Meu tio é o dono desta loja, será um prazer atendê-los.

Melissa contou que procurava por um violino novo e, como um bom vendedor Joshua apresentou muitos e ela teve até dificuldades em escolher. Somente na hora de efetuar o pagamento que o rapaz chamou o tio. Um homem corpulento veio do interior da loja, ele era muito forte, quase um militar. O homem passou pelos jovens e disse mirando Samuel.

- Como vai pagar?

- Cartão. – Respondeu Melissa intimidada com a opulência do homem.

O rapagão virou-se para a jovem e sua face brava se transformou em espantada.

- Erthian??? – Disse ele.

- Você conheceu minha mãe? – Perguntou Melissa surpresa.

- Uauuuu!!! Você deve ser a filha mais nova de Nate. Bem que ele me disse que você tinha ficado a cara da mãe. Não te vejo desde que era da altura do meu joelho.

- Perdão, mas… quem é o senhor?

- Claro que não iria se lembrar de mim, era muito pequena. Sou Peter Nyberg…

- … Segundo Esquadrão Tático do Canadá. – Disseram os dois juntos.

- Já ouvi muitas histórias do senhor. É um grande herói!

- Que isso menina, sem o Comandante não seríamos nada. Por onde anda seu velho pai?

- Em algum lugar do Texas… acho… ele resolveu treinar um grupinho de adolescentes agora, dão uma boa dor de cabeça…

- HumHumm – Josh chamou a atenção.

- Ah sim! Aqui essa menina não paga nada! – Disse o tio para a surpresa de todos – Mas vai ser obrigada a fazer uma apresentação para mim. Nate me disse que você e seu irmão tocam e cantam tão belamente que ele nem consegue presenciar porque parece uma dose dupla de Erthian. Eu adorava muito sua mãe, ela era uma mulher muito bondosa. Não vai me negar isso, não é?

- Claro que não! – Melissa respondeu sorridente – Será um prazer. Mas não sei se sou tudo aquilo que meu pai te disse.

O tio de Josh colocou uma placa de “Volto logo” na entrada da loja e acompanhou Melissa e os rapazes até os fundos da loja. A jovem pegou um violão e se sentou na banqueta.

- Bem, já que o senhor conheceu minha mãe, vou tocar uma música dela, tudo bem?

- Vai fundo, garota!!! – Disse o homenzarrão de forma bem estranha.

Os três estavam atentos. Talvez antes Josh e Sam não tivessem notado que a voz de Melissa era boa por causa do grupo e tudo mais, talvez não tivessem prestando atenção, não sabiam explicar, apenas era diferente agora. Peter não pareceu muito surpreso, mas pelo visto tinha gostado também.

- Bem, acho que isso vai ficar melhor ainda agora. – Disse o homem a si mesmo. Depois virou-se para os dois rapazes e disse. – Vocês ouviram a garota. Que tal agora colocar um pouco mais de instrumentos nessa música? Andem!!! Não fiquem parados!!! Músicos não podem perder tempo, hajam como um conjunto!!!

Josh, Sam e Mel ficaram meio perdidos com aquela ordem. Josh pegou uma guitarra e Sam sentou-se numa bateria ao fundo da loja. Peter pegou um contrabaixo e se juntou a eles.

Ao terminarem a música, dois homens que não estavam ali antes, aplaudiram.

- Muito bom, senhor Peter. – Disse um deles – Achávamos que íamos encontrar apenas uma pessoa para o hino, mas encontramos também a banda do show de abertura.

- Eles são bons, não são? – Disse Peter animado, seguindo com os dois homens para outro canto da loja – Vamos conversar lá dentro.

[Sam] O que está acontecendo?

[Josh] Acho que o tio está aprontando de novo. Estes caras vieram para me contratar para tocar o hino nacional na abertura dos jogos interescolares.

[Sam] E eles acham que somos uma banda??? Josh, você precisa dar um jeito nisso.

[Josh] Você está louco? Não posso discordar dele. Você viu o tamanho dele?

[Sam] Mel, ele pareceu gostar de você, fala com o homem, não somos uma banda.

[Mel] Eu??? Por que eu? Vamos todos juntos, vai ser mais fácil negar!

Mas não foi tão fácil assim. O senhor Nyberg não deixou os jovens pronunciar uma palavra, a autoridade militar dele se ressaltava tanto que nenhum dos três conseguiu falar nada até que os homens tivessem ido embora.

[Peter] Isso foi realmente ótimo!!! Agora a loja ganhará mais publicidade que nunca.

[Mel] Perdão, senhor Nyberg, mas não podemos fazer isso. Não somos uma banda. Acabei de chegar aqui e…

[Peter] Não será problema algum para vocês. A apresentação é daqui a três semanas, com certeza vocês tem bastante tempo livre em Hakagure, vão conseguir fazer umas cinco ou seis músicas, se saíram bem agora há pouco.

[Sam] Mas senhor…

[Peter] Sem “mas” rapaz!!! Essa apresentação é importante e vocês vão! Onde já se viu crianças tentarem questionar autoridade, francamente, a juventude de hoje está perdida. Daqui a três semanas vocês vão abrir os jogos interescolares em Namimori e ponto final. Vão me agradecer por isso depois.

[Mel] Namimori, senhor?

[Peter] Sim, não vá me dizer que tem algum problema com… ah, claro… como pude me esquecer… Namimori é onde mora o velho Yamamoto e o filho dele, não é? Nate me contou que você tinha uma quedinha pelo rapaz…

[Mel] NÃO!!! Não é isso… é só que…

[Peter] Estamos resolvidos então. Agora vocês tem muito o que fazer. Vamos, vamos, eu preciso trabalhar!

Senhor Nyberg expulsou os três da loja rapidamente. Os jovens seguiram para uma lanchonete próxima e começaram a devorar milkshakes confusos.

[Josh] Desculpe gente, sem querer meti vocês numa enrascada.

[Mel] Eu devia saber que amigos do meu pai só são muito gentis quando querem algo… Me deixei levar também…

[Sam] Bom, agora não temos muita escolha, não é? Como vamos fazer isso? Se o restante do Clube souber vão nos chutar para fora.

[Josh] Cara! Você é o presidente do Clube, não pode deixar eles dominarem você assim.

[Mel] Dane-se o Clube!!! Se aqueles almofadinhas acharem ruim vou fazê-los engolir os instrumentos!!!

Os dois rapazes olharam para Melissa surpresos.

[Mel] Desculpe, estou nervosa.

Os dois deram uma risada descontraída.

[Sam] Sério, gente, como vamos fazer? Três semanas passam voando e na outra é a apresentação de Hakagure.

[Mel] A apresentação da academia não me preocupa muito, o prof. Elphin disse que quase ninguém aparece.

[Josh] Isso foi bem direto. A verdade dóóóiii…

[Sam] Mas isso não significa que você possa fazer qualquer coisa. Se não for incrivelmente bom o clube vai te estraçalhar…

[Mel] Tudo bem, não se preocupe. Mas, e vocês, como pretendem organizar as duas coisas?

[Josh] Acho que devíamos alugar as salas de música para a noite toda para ensaiarmos. Assim não chamaríamos a atenção de ninguém e teríamos a tarde livre para nossos ensaios pessoais. O que acham?

[Sam] Bem, nos livramos dos olhares maldosos. Mas… o que vamos tocar?

[Josh] Tenho algumas músicas compostas. Não é nada muito elaborado, mas acho que dá para o gasto.

[Mel] Eu e meu irmão compusemos algumas também, mas a maioria nunca chegamos a apresentar. Talvez tenha alguma coisa interessante lá no meio.

[Josh] Fechou!!! Assim que voltarmos à academia podemos tocar todas uns para os outros e escolher o que acham?

[Sam] Por mim, tudo bem.

[Mel] Por mim, não. Podemos deixar para amanhã pela manhã? Esta noite tenho um compromisso.

[Josh] Hã??!! O que pode ser mais importante que isso no momento? Não me diga que tem um encontro? Quem é, heim? Vai deixar ela escapar assim, Sam?

[Mel] Não é nada disso!!!! – Disse brava.

[Josh] Sei, sei… Vou ali dar uma olhadinha no cardápio.

Josh saiu como quem fosse deixar um casal conversar sozinho. E foi quase isso o que aconteceu, tirando o fato de que não eram um casal propriamente dito.

[Sam] Sei que não tenho nada a ver com isso mas… onde você vai? Não pode passar a noite fora da academia sem permissão.

[Mel] Bem, tecnicamente estarei dormindo, exceto que não estarei aqui. Preciso voltar a Tellius, o plano era ficar dez dias em cada lugar.

[Sam] Dez dias??? Lá??? Mas… é muito tempo…

[Mel] Não tanto. Assim como Shin Makoku, o tempo entre Tellius e a Terra passam de forma diferente quando se navega entre os mundos. Dez dias lá são dez horas aqui. Dez dias aqui são dez horas lá. Bem, talvez não tão certinho assim, mas é um valor aproximado.

[Sam] Então, teoricamente você só vai acordar um pouco mais tarde?

[Mel] Isso.

[Sam] Mas você disse que lá está em guerra.

[Mel] Sim, está.

[Sam] Mas pode ser perigoso, e se você se machucar?

[Mel] Ainda que em guerra, grande parte da população não é forte o suficiente para me ferir. A guerra está tomando rumos que preciso acompanhar. Não posso deixar que eles se matem. Afetaria o equilíbrio entre os mundos, além de ser muito cruel.

[Sam] Entendo… Tem certas horas que deve ser difícil ser governante…

[Mel] Várias horas…

Após o lanche, Joshua, Samuel e Melissa retornaram à Academia Hakagure. Mel passou a noite conversando com Colin e Ray que queriam saber todos os detalhes da saída dela com Samuel. Sam, por sua vez, observava o grupo de longe. Por volta das dez da noite, todos voltaram aos seus dormitórios. E Melissa retornou a Tellius.

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3. Encontro noturno

Junho 12, 2009 at 1:37 am (Hakagure Academy, Kyou Kara Maou, Terra)

A aula seguinte foi mais terrivelmente demorada que qualquer outra. Assim que terminou, o professor mal tinha saído da sala quando Sam entrou. Por algum motivo a presença dele paralisou toda a sala. O rapaz caminhou até a carteira de Mel, deixou um papel dobrado na mesa dela e saiu sem dizer uma palavra. Melissa ficou observando aquela cena e logo toda a sala olhava para ela. Colin ia perguntar o que fora aquilo, mas o professor seguinte entrou na sala e o impediu. Quando todos se concentravam na aula, Mel abriu o bilhete e leu “Me encontre às 20h na sala de artes”. Ray já havia contado que a sala de artes funcionava até às 18h por causa da luz. Era perfeita para dois seres de outro mundo se encontrar. Para Melissa a tarde foi incrivelmente longa.

Durante o jantar, Ray e Colin encheram Mel de perguntas sobre Sam. Ela contou tudo o que acontecera no intervalo, tudo menos a parte de que os dois não pertenciam àquele lugar. Ray e Colin estavam curiosos para saber o que Sam queria com Mel, curiosos por motivos diferentes.

- Ele é tão incrível!!!! – Dizia Ray animada – Sempre super educado e charmoso. Ele toca flauta, violino, piano, guitarra e bateria. Será que é isso? Será que ele sabe que você está interessada no clube de música? Dizem que ele é o melhor atleta do clube de esgrima, não sei por que ele não é o capitão do time…

- Garotas são muito cegas! – Contestou Colin nervoso – Não caia na dele, Mel. Ele se faz de bonzinho, mas não é nada disso. Uma arrogância sem limite, sempre se achando o maioral. E é um delinqüente. Ano passado ele se meteu brigou com quase todo clube de karatê e judô.

- E derrotou todos eles! – Interrompeu Ray – Mas aquilo foi legítima defesa. Os garotos das artes marciais estavam só com inveja…

Ray e Colin discutiram por causa de Sam por todo o jantar. Mel sabia que provavelmente os dois tinham razão. Sam era um mazoku, era normal os mazokus se destacarem por sua beleza. Por ser de uma família nobre, certamente ele possuía uma boa educação, conhecimento apurado das artes e técnicas militares. Era quase óbvio que atrairia a atenção das garotas e desprezo por parte de vários rapazes. Mas a pergunta era… o que um mazoku fazia lá?

A sala de artes estava apagada quando Melissa chegou, mas ao abrir a porta ela viu a silhueta de Samuel iluminada pelo luar. Ela entrou, fechou a porta atrás de si e seguiu em direção do rapaz.

- Não sei se foi um convite ou uma convocação, mas aqui estou. – Disse a jovem.

- Perdão. Não tive a intenção de ser rude, alteza. – Respondeu o rapaz sem olhar a ela diretamente.

- Ok! Vamos deixar algumas coisas claras aqui. Um: Estamos na Terra, títulos não valem nada aqui, então pode parar de frescura. Dois: Nada de tratamentos especiais nem intervenções políticas, não vou ser garota de recados entre Shin Makoku e Sphere…

- Nunca tive essa intenção!!! Só… fiquei surpreso… um pouco desnorteado… – Disse o rapaz voltando-se para Mel vagarosamente.

- Eu também! – Assumiu a jovem acalmando o ritmo- Você é a cara do seu tio! O que um nobre mazoku faz na Terra?

- É… quase uma missão…

- Suponho que você não possa revelar…

- Sim… mas também nunca pensamos que haveria outro de nós aqui… Minha vez de perguntar, o que uma nobre como você faz na Terra?

- Huuummm… Isso seria segredo também, mas na verdade não me importo nada em revelar… – Disse Mel para a surpresa de Sam – Não sei até onde você conhece a história dos Villeforte, talvez bastante porque me chamou de “alteza”, mas enfim… Os Villeforte se separaram de Shin Makoku quando eu e meu irmão nascemos. Nosso pai não é mazoku, ele é um humano. A grande nobreza se negava a aceitar herdeiros das Casas de Shin Makoku de origem mestiça, por isso minha mãe resolveu romper a aliança e fundar Sphere livre.

- Conheço essa história. Meu avô contava com grande pesar. Dizia que o orgulho mazoku não agradava o Rei Original.

- O que possivelmente ninguém sabe é que meu pai é um humano da Terra.

- Isso é novidade… – Exclamou o jovem surpreso e finalmente encarando Melissa.

- A tecnologia do meu pai, unida à magia da minha mãe, permitiu que eu e meu irmão pudéssemos viver em ambos os mundos. Claro que não foi muito fácil e com a guerra de vinte anos atrás tudo mudou. Quando meu irmão assumiu a coroa, ele ficou mais distante da Terra. Para facilitar os contatos de Sphere com os mundos exteriores, colocamos algumas pessoas- chave em cada lugar, pessoas de maior confiança do meu irmão e que são divulgadas como se fossem senhores de Sphere. Eu faço parte deste grupo, posso transitar entre Sphere, a Terra e um lugar chamado Tellius. Passo muito mais tempo na Terra do que nos outros lugares, e até semana passada eu estava na América. Por algum motivo, não sei qual, meu pai quis me transferir para cá e eu vim. Alguma coisa neste lugar chamou a atenção dele. Por isso estou aqui.

Sam ficou confuso por um tempo, não sabia o que fazer com tanta informação. Permaneceu alguns minutos em silêncio mas, por fim, perguntou:

- Por que me contou tudo isso tão tranquilamente? Por que não inventou uma desculpa?

- Pra que? – Perguntou Melissa sorrindo – Se vamos conviver cerca de dois anos juntos na Terra, se vamos guardar segredo da origem um do outro, qual razão teria de não dizer a verdade? De nada adianta esconder algo trivial como uma identidade que você descobriria na primeira viagem a Shin Makoku. Além do mais, conheço várias histórias da família Christ, sei bem que são muito honrados. Você não vai me expor, não precisa disso.

- Garota… não sei se você é tonta ou sábia demais!!! – Disse Sam finalmente mostrando um grande sorriso – Gostei de você! Gostei mesmo!

- Esta aí uma coisa que não costumo escutar vindo de um mazoku! Algo mais que possa te servir, vossa excelência sir Von Christ?

- Hahahhaha!!! Sem moralidades… Sam, apenas Sam… Você… bem… poderia não ficar brava de eu não revelar minhas razões? Não tenho certeza de como isso seria recebido, sabe…

- Claro que não me incomodo! Eu que sou a tonta aqui. – Respondeu sorrindo.

Os dois deixaram a sala de artes e seguiram de volta aos dormitórios. Como o bom cavalheiro que era, Sam deixou Mel na porta do dormitório feminino, o que chamou a atenção de muitas garotas que começaram a olhar torto para Melissa. Sem se importar com os olhares curiosos, a jovem seguiu para seu quarto, feliz por ter feito um novo amigo, ao menos um pouco parecido com ela.

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2. Sam

Maio 25, 2009 at 1:55 am (Hakagure Academy, Kyou Kara Maou, Terra)

Melissa passou o domingo com Colin e Ray conhecendo as salas de música e esportes e escutando histórias que envolviam os clubes. No dia seguinte ela acordou bem cedo, vestiu o novo uniforme e se preparou para a nova rotina. O coração da jovem já estava mais tranqüilo depois do leve final de semana, ela era capaz de discernir um pouco melhor, pensar um pouco mais sobre o que faria ao retornar para Tellius, mas ainda não tinha idéia de como iria proteger duas crianças de um rei malvado e seu exército. Ela caminhava pelo longo caminho de cerejeiras entre os dormitórios e os prédios das aulas teóricas, quando notou a bela vista que podia ver da cidade abaixo. Entre os pensamentos de guerra de  Tellius e a calmaria de Hakagure, Melissa parou para observar a paisagem.

- Como será minha temporada neste lugar? Essa paz é maravilhosa… Mas tudo um dia tem que mudar… Elas sempre mudam… As coisas felizes e as coisas divertidas… tudo… muda… Mesmo assim, deveria me apegar a esse lugar? – Dizia a si mesma.

- Não é só encontrar? – Melissa escutou uma voz masculina ao lado dela.

A jovem se virou, surpreendida pelo momento de fraqueza que tinha exteriorizado. Assustada por ter sido descoberta. Os olhos da garota se depararam com um belo rapaz mais alto que ela, aproximadamente da mesma idade, com longos cabelos e olhos cor de ametista, assim como os olhos dela. “Günter?” – Pensou – “Não, impressão minha, deve ser bem mais novo que ele.”

- Quando tudo mudar, não é só encontrar as próximas coisas felizes e divertidas? – Continuou o rapaz encarando-a – Vem, vamos nos atrasar!

Melissa não disse nada, nem o rapaz dirigiu-lhe a palavra durante o longo caminho até o prédio. As aulas teóricas foram entediantes como quase sempre. O pai de Melissa sempre a obrigava a estudar quando viajavam entre os mundos, então constantemente ela ficava além dos outros alunos. Era injusto, ela sabia, mas indiscutível. Com o tempo ela se acostumou a fazer isso sozinha, sempre que tinha um tempo livre estava com um livro na mão. Mas, por esta ser uma escola deveras forte, esperava que fosse ter dificuldades em breve, isso a incentivava.

Alguns dias depois, Melissa estava lanchando embaixo de uma árvore, quando o misterioso rapaz tornou a aparecer.

- Yo, está sozinha? – Perguntou ao se aproximar – Não deveria estar na sala do conselho com seus amigos?

Melissa olhou para o rapaz com uma mistura de curiosidade e desaprovação. Como é que ele sabia que ela costumava lanchar na sala do Conselho Estudantil com Ray e Colin? E o que ele tinha a ver com isso? Mas, evitando ser grosseira logo de cara, ela respondeu:

- Está tendo reunião entre o conselho e os representantes de sala neste momento.

- Quer dizer que você não é um daqueles super burocratas escolares? Estou surpreso! Nunca tinha te visto até essa semana.

- E essa foi a primeira conclusão que você tirou? Impressionante… Não chegou a pensar que nunca me viu antes por que eu não existia?

- Como?

- Me transferi para este lugar semana passada. Não viu o jornal da escola? Eles me perseguiram até me obrigarem a dar entrevista. A parte boa é que me deixaram em paz depois disso. Sem mais idiotas me pajeando para arrumar assunto e fazer fofocas por aí…

O rapaz nada disse, apenas continuou olhando.

- Me desculpe… Estou sendo grosseira com você… Falando essas coisas para alguém que acabei de conhecer…

- Hahahahaha!!! Gostei de você! Sem rodeios e sem frescuras. Nesta academia tem muita gente rica, é difícil encontrar alguém sincero assim! – Continuou o rapaz sorrindo e finalmente sentando-se ao lado dela – Então… É por isso que estava falando aquelas coisas confusas? Você costuma se transferir bastante e por isso tem medo de criar laços aqui?

- Bingo!

- Garota burra! Isso só vai te fazer infeliz onde quer que você vá. Também não sou daqui, quando terminar os estudos provavelmente nunca mais verei as pessoas que hoje estão ao meu redor. Mas isso não me deixa deprimido, ao contrário, quero reunir o máximo de memórias e experiências boas e poder transmiti-las a todas as pessoas que um dia farão parte da minha nova vida.

Melissa ficou olhando fixamente para o rapaz. Ele tinha razão, ela sabia que tinha. Ela sempre viveu em meio de conflitos que estava com medo de ser feliz em um lugar tão pacífico como este.

- Me desculpe, isso pareceu um sermão né? – Falou o rapaz sem graça.

- Não, de jeito nenhum, acho que eu precisava ouvir isso. Obrigada! – Respondeu a garota sorrindo enquanto o sinal tocava os avisando do fim do intervalo.

- Bom, hora de ir! A propósito, sou Samuel Von Christ, da turma D, mas pode me chamar de Sam.

- Sou Melissa Summers, da turma B, mas pode me chamar de Mel. – Disse um pouco perplexa. Ele se parecia com Günter, e tinha o mesmo sobrenome, mas não era possível, um mazoku na Terra, era absurdo demais… A cabeça da jovem rodou por um segundo, mas ela soltou logo em seguida – Melissa Von Villeforte Summers!

Desta vez foi a cabeça de Sam que rodou. Ele estava saindo mas virou-se e se aproximou dela. Visivelmente surpreso ele disse baixinho:

- Você é uma herdeira de Sphere?

- Pelo visto você é mesmo parente do Günter. – Sorriu.

- Günter é meu tio.

- Erthian era minha mãe.

- O que faz aqui?

- Pergunto o mesmo.

Os dois continuaram a se encarar, sem saber o que dizer um ao outro, até que alguém gritou ao fundo: Christ! Summers! Acabou intervalo! Mel sorriu para Sam uma última vez e saiu correndo para dentro do prédio.

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