5. A loja de instrumentos
No dia seguinte, logo após o café da manhã, Melissa e Samuel se encontraram no ponto de ônibus que levava à cidade, conforme combinado. Os dois conversaram animados durante todo o caminho. Sam contara como fora difícil se adaptar às diferenças da Terra e diversos ‘foras’ que deu por se deparar com um mundo diferente. Melissa achou tudo muito engraçado, como crescera entre culturas diferentes não teve grandes dificuldades. Ao chegarem à cidade, Sam insistiu em parar em alguns lugares no caminho da loja de instrumentos musicais. Eles gastaram quase duas horas vendo CDs, DVDs e procurando por jogos de videogame. Depois disso foram almoçar em um restaurante local, onde Mel percebeu pela primeira vez a diferença clara entre Sam e Günter. Na escola, Sam sempre era sério, compenetrado, atencioso a tudo que acontecia ao redor, assim como Günter sempre se apresentou; mas agora ele se mostrava muito mais descontraído e divertido, quase como se outro Sam estivesse aparecido. Melissa divagou um pouco pensando se ela também não seria um pouco assim, uma pessoa diferente a cada ambiente que freqüentava, mas logo foi trazida à realidade por Sam. Depois do almoço os dois passaram em frente a um fliperama onde Sam insistiu em mostrar as habilidades que adquirira ao desvendar as máquinas no ano anterior, somente depois disso foram à loja de instrumentos.
A vitrine da loja não era muito grande, mas ao entrar Melissa se deparou com um paraíso de instrumentos, acessórios e livros de música. Ambos seguiram pelas prateleiras cheias onde Sam mostrava diversos livros de composições. Poucos minutos se passaram desde que entraram e um som de piano começou a vir do fundo da loja.
- Noturno em Re bemol? – Perguntou Melissa.
- Sério? Percebo que é um Noturno, mas não consigo distinguir assim.
- Acho que é um dos noturnos de Chopin.
- Vamos lá ver?
Os dois seguiram ao fundo da loja e se depararam com um rapaz ao piano. Os dois se surpreenderam ao reconhecer o rapaz de cabelos claros e escuros do Clube de Música, entretanto nada disseram, apenas escutaram.
Ao fim da apresentação, Samuel e Melissa aplaudiram e o rapaz finalmente percebeu que não estava sozinho.
[Sam] Isso foi maravilhoso Josh, eu não sabia que tocava piano, achei que seu mundo era o violoncelo.
[Josh] É, mas de vê em quando gosto de variar. O que fazem por aqui? Não me digam que estão tendo um encontro?
[Sam] Não seja idiota!!!! – Exclamou encabulado – Essa é a melhor loja da região, trouxe a Melissa para conhecer.
[Josh] Então já que é assim… – Disse se aproximando de Melissa, pegando-lhe a mão e dando um beijo – Joshua Gerwinski a seu dispor, mademoiselle.
Mel corou e sorriu sem graça. Sam, com as orelhas um pouco avermelhadas, apenas olhou nervoso.
[Josh] Meu tio é o dono desta loja, será um prazer atendê-los.
Melissa contou que procurava por um violino novo e, como um bom vendedor Joshua apresentou muitos e ela teve até dificuldades em escolher. Somente na hora de efetuar o pagamento que o rapaz chamou o tio. Um homem corpulento veio do interior da loja, ele era muito forte, quase um militar. O homem passou pelos jovens e disse mirando Samuel.
- Como vai pagar?
- Cartão. – Respondeu Melissa intimidada com a opulência do homem.
O rapagão virou-se para a jovem e sua face brava se transformou em espantada.
- Erthian??? – Disse ele.
- Você conheceu minha mãe? – Perguntou Melissa surpresa.
- Uauuuu!!! Você deve ser a filha mais nova de Nate. Bem que ele me disse que você tinha ficado a cara da mãe. Não te vejo desde que era da altura do meu joelho.
- Perdão, mas… quem é o senhor?
- Claro que não iria se lembrar de mim, era muito pequena. Sou Peter Nyberg…
- … Segundo Esquadrão Tático do Canadá. – Disseram os dois juntos.
- Já ouvi muitas histórias do senhor. É um grande herói!
- Que isso menina, sem o Comandante não seríamos nada. Por onde anda seu velho pai?
- Em algum lugar do Texas… acho… ele resolveu treinar um grupinho de adolescentes agora, dão uma boa dor de cabeça…
- HumHumm – Josh chamou a atenção.
- Ah sim! Aqui essa menina não paga nada! – Disse o tio para a surpresa de todos – Mas vai ser obrigada a fazer uma apresentação para mim. Nate me disse que você e seu irmão tocam e cantam tão belamente que ele nem consegue presenciar porque parece uma dose dupla de Erthian. Eu adorava muito sua mãe, ela era uma mulher muito bondosa. Não vai me negar isso, não é?
- Claro que não! – Melissa respondeu sorridente – Será um prazer. Mas não sei se sou tudo aquilo que meu pai te disse.
O tio de Josh colocou uma placa de “Volto logo” na entrada da loja e acompanhou Melissa e os rapazes até os fundos da loja. A jovem pegou um violão e se sentou na banqueta.
- Bem, já que o senhor conheceu minha mãe, vou tocar uma música dela, tudo bem?
- Vai fundo, garota!!! – Disse o homenzarrão de forma bem estranha.
Os três estavam atentos. Talvez antes Josh e Sam não tivessem notado que a voz de Melissa era boa por causa do grupo e tudo mais, talvez não tivessem prestando atenção, não sabiam explicar, apenas era diferente agora. Peter não pareceu muito surpreso, mas pelo visto tinha gostado também.
- Bem, acho que isso vai ficar melhor ainda agora. – Disse o homem a si mesmo. Depois virou-se para os dois rapazes e disse. – Vocês ouviram a garota. Que tal agora colocar um pouco mais de instrumentos nessa música? Andem!!! Não fiquem parados!!! Músicos não podem perder tempo, hajam como um conjunto!!!
Josh, Sam e Mel ficaram meio perdidos com aquela ordem. Josh pegou uma guitarra e Sam sentou-se numa bateria ao fundo da loja. Peter pegou um contrabaixo e se juntou a eles.
Ao terminarem a música, dois homens que não estavam ali antes, aplaudiram.
- Muito bom, senhor Peter. – Disse um deles – Achávamos que íamos encontrar apenas uma pessoa para o hino, mas encontramos também a banda do show de abertura.
- Eles são bons, não são? – Disse Peter animado, seguindo com os dois homens para outro canto da loja – Vamos conversar lá dentro.
[Sam] O que está acontecendo?
[Josh] Acho que o tio está aprontando de novo. Estes caras vieram para me contratar para tocar o hino nacional na abertura dos jogos interescolares.
[Sam] E eles acham que somos uma banda??? Josh, você precisa dar um jeito nisso.
[Josh] Você está louco? Não posso discordar dele. Você viu o tamanho dele?
[Sam] Mel, ele pareceu gostar de você, fala com o homem, não somos uma banda.
[Mel] Eu??? Por que eu? Vamos todos juntos, vai ser mais fácil negar!
Mas não foi tão fácil assim. O senhor Nyberg não deixou os jovens pronunciar uma palavra, a autoridade militar dele se ressaltava tanto que nenhum dos três conseguiu falar nada até que os homens tivessem ido embora.
[Peter] Isso foi realmente ótimo!!! Agora a loja ganhará mais publicidade que nunca.
[Mel] Perdão, senhor Nyberg, mas não podemos fazer isso. Não somos uma banda. Acabei de chegar aqui e…
[Peter] Não será problema algum para vocês. A apresentação é daqui a três semanas, com certeza vocês tem bastante tempo livre em Hakagure, vão conseguir fazer umas cinco ou seis músicas, se saíram bem agora há pouco.
[Sam] Mas senhor…
[Peter] Sem “mas” rapaz!!! Essa apresentação é importante e vocês vão! Onde já se viu crianças tentarem questionar autoridade, francamente, a juventude de hoje está perdida. Daqui a três semanas vocês vão abrir os jogos interescolares em Namimori e ponto final. Vão me agradecer por isso depois.
[Mel] Namimori, senhor?
[Peter] Sim, não vá me dizer que tem algum problema com… ah, claro… como pude me esquecer… Namimori é onde mora o velho Yamamoto e o filho dele, não é? Nate me contou que você tinha uma quedinha pelo rapaz…
[Mel] NÃO!!! Não é isso… é só que…
[Peter] Estamos resolvidos então. Agora vocês tem muito o que fazer. Vamos, vamos, eu preciso trabalhar!
Senhor Nyberg expulsou os três da loja rapidamente. Os jovens seguiram para uma lanchonete próxima e começaram a devorar milkshakes confusos.
[Josh] Desculpe gente, sem querer meti vocês numa enrascada.
[Mel] Eu devia saber que amigos do meu pai só são muito gentis quando querem algo… Me deixei levar também…
[Sam] Bom, agora não temos muita escolha, não é? Como vamos fazer isso? Se o restante do Clube souber vão nos chutar para fora.
[Josh] Cara! Você é o presidente do Clube, não pode deixar eles dominarem você assim.
[Mel] Dane-se o Clube!!! Se aqueles almofadinhas acharem ruim vou fazê-los engolir os instrumentos!!!
Os dois rapazes olharam para Melissa surpresos.
[Mel] Desculpe, estou nervosa.
Os dois deram uma risada descontraída.
[Sam] Sério, gente, como vamos fazer? Três semanas passam voando e na outra é a apresentação de Hakagure.
[Mel] A apresentação da academia não me preocupa muito, o prof. Elphin disse que quase ninguém aparece.
[Josh] Isso foi bem direto. A verdade dóóóiii…
[Sam] Mas isso não significa que você possa fazer qualquer coisa. Se não for incrivelmente bom o clube vai te estraçalhar…
[Mel] Tudo bem, não se preocupe. Mas, e vocês, como pretendem organizar as duas coisas?
[Josh] Acho que devíamos alugar as salas de música para a noite toda para ensaiarmos. Assim não chamaríamos a atenção de ninguém e teríamos a tarde livre para nossos ensaios pessoais. O que acham?
[Sam] Bem, nos livramos dos olhares maldosos. Mas… o que vamos tocar?
[Josh] Tenho algumas músicas compostas. Não é nada muito elaborado, mas acho que dá para o gasto.
[Mel] Eu e meu irmão compusemos algumas também, mas a maioria nunca chegamos a apresentar. Talvez tenha alguma coisa interessante lá no meio.
[Josh] Fechou!!! Assim que voltarmos à academia podemos tocar todas uns para os outros e escolher o que acham?
[Sam] Por mim, tudo bem.
[Mel] Por mim, não. Podemos deixar para amanhã pela manhã? Esta noite tenho um compromisso.
[Josh] Hã??!! O que pode ser mais importante que isso no momento? Não me diga que tem um encontro? Quem é, heim? Vai deixar ela escapar assim, Sam?
[Mel] Não é nada disso!!!! – Disse brava.
[Josh] Sei, sei… Vou ali dar uma olhadinha no cardápio.
Josh saiu como quem fosse deixar um casal conversar sozinho. E foi quase isso o que aconteceu, tirando o fato de que não eram um casal propriamente dito.
[Sam] Sei que não tenho nada a ver com isso mas… onde você vai? Não pode passar a noite fora da academia sem permissão.
[Mel] Bem, tecnicamente estarei dormindo, exceto que não estarei aqui. Preciso voltar a Tellius, o plano era ficar dez dias em cada lugar.
[Sam] Dez dias??? Lá??? Mas… é muito tempo…
[Mel] Não tanto. Assim como Shin Makoku, o tempo entre Tellius e a Terra passam de forma diferente quando se navega entre os mundos. Dez dias lá são dez horas aqui. Dez dias aqui são dez horas lá. Bem, talvez não tão certinho assim, mas é um valor aproximado.
[Sam] Então, teoricamente você só vai acordar um pouco mais tarde?
[Mel] Isso.
[Sam] Mas você disse que lá está em guerra.
[Mel] Sim, está.
[Sam] Mas pode ser perigoso, e se você se machucar?
[Mel] Ainda que em guerra, grande parte da população não é forte o suficiente para me ferir. A guerra está tomando rumos que preciso acompanhar. Não posso deixar que eles se matem. Afetaria o equilíbrio entre os mundos, além de ser muito cruel.
[Sam] Entendo… Tem certas horas que deve ser difícil ser governante…
[Mel] Várias horas…
Após o lanche, Joshua, Samuel e Melissa retornaram à Academia Hakagure. Mel passou a noite conversando com Colin e Ray que queriam saber todos os detalhes da saída dela com Samuel. Sam, por sua vez, observava o grupo de longe. Por volta das dez da noite, todos voltaram aos seus dormitórios. E Melissa retornou a Tellius.
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