8. Forte Meritenne
Os mercenários caminharam pelo trajeto de volta durante toda a manhã. O sol já estava alto quando finalmente Ike parou para conversar com o grupo.
- Eles não estão por aqui também…
- Ike, procurá-los mais adiante pode ser perigoso. – Alertou Soren – Acho que no momento a melhor coisa que temos a fazer é retornar à Gallia. É possível que o comandante tenha utilizado outro caminho até Gallia. Devemos considerar esta hipótese.
- Você tem razão… – Admitiu o jovem líder – Sermos mortos enquanto procuramos por eles seria um desperdício de tudo o que eles arriscaram ao nos separarmos. Acho que tudo que temos a fazer é confiar que eles estão bem e retornar.
- Ike! – Chamou Titania com a atenção longe da conversa deles – Logo à frente tem um forte. Agora a pouco, apenas por um momento… achei ter visto alguém. Devemos investigar?
- O que? Mesmo? – Perguntou um pouco entusiasmado – Vamos até lá dar uma olhada.
O grupo seguiu para o forte, que não tinha nenhum sinal de presença no exterior. Eles entraram e seguiram em frente silenciosamente.
- Aparentemente este local está abandonado há muito tempo. – Comentou Soren.
- Não tem ninguém aqui… – Disse Titania desolada – Eu podia jurar que vi uma silhueta, mas… acho que deve ter sido algum truque de luz…
- Vamos dar uma olhada rápida ao redor. – Sugeriu Ike – Se não encontrarmos nada seguiremos de volta para Gallia.
Mas mal o menino terminara de falar e um soldado apareceu correndo vindo de uma sala à direita, os avistou e gritou: “Eles estão aqui!!! Encontrei os mercenários de Crimea!!! Cerquem-os!!!”. Antes que Ike pudesse decidir entre sair e permanecer, os mercenários viram soldados de Daien aparecerem por todos os lados. Agora não havia mais escolha, tinham que lutar se quisessem sair de lá.
O grupo estava praticamente cercado, precisariam abrir uma grande vantagem para poder saírem de lá. Deste modo acabaram se dividindo em dois. Ike avançava com Soren e Titania ao seu lado enquanto Oscar, Boyd e Rhys seguiam em outra direção. Logo após o início da luta, enquanto seguia pelo corredor leste, Ike viu uma garota praticamente da idade dele, derrotando soldados e vindo em sua direção.
- Por acaso seu nome não é Ike, é? – Perguntou a jovem de profundos olhos verdes.
- Sim, é mas… quem é você?
- Meu nome é Mia. Sou uma mercenária contratada por Crimea para ajudar no exército.
- Uma mercenária no exército? Então, o que você está fazendo aqui?
- Fui descuidada e acabei sendo capturada. Eles estavam prestes a me mandar para o campo de prisioneiros quando Greil me salvou.
- Você viu meu pai? Onde? – Perguntou o rapaz esquecendo-se da luta e voltando a atenção para a menina.
- Um pouquinho a norte daqui. Não muito longe.
- Mesmo? Então ele está bem… – Disse aliviado.
- Me diga, quem exatamente são vocês?
- Nós somos os Greil Mercenaries. Como pode ver, estamos lutando contra Daien.
- Huummm… Vocês estão enfrentando um batalhão inteiro apenas com este grupo? Legal! Fechou então.
- Fechou o quê?
- Esta batalha. Vou juntar forças com você. Não se importa, não é?
- Por mim tudo bem, mas… Não sei se você será paga só porque eu deixei você lutar.
- A gente se preocupa com os detalhes depois! Ótimo, fechou de verdade. Qual próximo passo, chefe?
Ike apontou para os soldados e eles se separaram. Ike não sabia em que pensar, na alegria de saber que o pai estava bem, na garota estranha que acabara de se juntar a eles ou em como iam fazer para sair dali. A luta seguia bem, todos estavam se acostumando com o estilo dos inimigos, até que, do outro lado da sala, viram uma mulher com armadura negra se aproximar a cavalo com uma enorme lança.
- Hahahhaha… Finalmente encontrei vocês. Vocês me providenciaram mais diversão do que eu achava que iriam. – Disse alto de modo que todos podiam escutá-la.
- Quem é você? – Perguntou Ike.
- Eu? Eu sou General Petrine e minha chegada significa o seu fim!!! – Anunciou engrandecendo-se – Lamento seu azar, criança, mas toda esperança acaba aqui. Vocês não vão sair vivos daqui.
- Petrine… Dos Quatro Cavaleiros? – Desembuchou Soren com expressão assustada.
- Você conhece ela, Soren? – Ike perguntou ao amigo.
- Ela deve ser uma dos quatro generais que o rei de Daien mais confia. – Respondeu o mago – Dizem que ela manipula uma lança de chamas com terríveis poderes arcanos.
- Hahhahaha… você ouviu falar de mim? – Perguntou orgulhosa. – Estou lisonjeada. Vou tentar pegar leve com vocês. Me entreguem a princesa, e façam isso agora. Se eu queimar a garota junto com vocês não vou ter como entregar a cabeça dela para vossa majestade.
- Desculpa dizer isso, mas a princesa não está aqui. – Respondeu Ike determinado – Ela está em Gallia já faz um tempinho.
- O quê? Espera que eu acredite num absurdo desses? Não tem como vermes mercenáros como vocês terem passado pelas minhas tropas! – Gritou furiosa.
- Dizem que a arrogância cega o campo e trás a destruição em si. – Disse uma voz austera vindo da entrada oeste – Alguma coisa me diz que estavam falando sobre você.
- Quem…?
Antes que a arrogante amazona pudesse perceber, Greil, Gatrie e Shinon invadiram a sala derrotando todos os soldados que apareciam na frente. Eles seguiram em direção a Petrine e somente pararam quando ela estava perto o suficiente.
- Pai! – Gritou Ike tentando se aproximar.
- O que está fazendo voltando aqui, menino burro?
- Nós levamos a princesa em segurança para Gallia. Quando vocês não se juntaram a nós, decidimos procurar por vocês. A missão não estaria completa até que voltassem.
- O que vou fazer com você? – Perguntou o pai – Mas ainda assim, fez bem. Bom trabalho, Ike.
- Há! Me ignorar mostra que vocês tem mais coragem do que as pessoas normais. – Interferiu a amazona – Então você é o comandante? Humph! Eu estava esperando um grande herói. Você é só mais um homem ordinário.
- Eu sou? – Desafiou Greil.
- Hahahahaha! Sabe de uma coisa, acho que vou ficar com você! – Disse a mulher – Vossa Majestade, bem… Digamos que ele gosta de homens fortes. Sim, acho que você vai ser um grande brinde. Você não precisa vir quietinho, mas vou deixar você vivo. Homens mortos não tem valor nenhum.
- … Então os rumores dos jogos doentios do rei Ashnard são verdade, não são? Shinon, Gatrie, eu vou distrair a mulher. Vocês dois pegam Ike e os outros e dão o fora daqui agora! – Ordenou o comandante.
- Entendido! – Respondeu Shinon.
- Mas, comandante! Não podemos deixar você aqui sozinho! – Questionou Gatrie.
- Idiota! Aquela mulher não é nada perto do comandante. Vamos, anda logo! – Disse Shinon afastando-se de Greil e seguindo em direção aos demais mercenários.
- Andem logo! Nos reencontramos em Gallia! – Ordenou Greil com tom bastante autoritário.
- Vocês não tem como escapar de mim. – Ameaçou Petrine – Nem você e nem seus pequenos amigos.
- Você disse que seu nome era Petrine, certo? – Greil chamou a atenção desafiando a mulher – Escuta aqui. Esse lugar nem de longe é grande o suficiente. Não tem espaço o suficiente para um combate entre nós dois. Eu vou para outro lugar. Você vem?
- Você realmente acha que vou ser enganada simples assim?
- Você e eu. Nós dois temos mais poder do que uma pessoa comum. Não é todo dia que uma chance dessa bate na nossa porta. Eu prefiro exercitar meus músculos sem nenhuma distração no caminho, e você?
- Hahahahha… Você realmente sabe como convencer uma garota, não é? Muito vem, estou indo. Soldados! Matem todos!
Os dois saíram pelo mesmo lugar por onde Greil chegou. Ike ficou desnorteado sem saber o que fazer por alguns segundos. Mas depois começou a espalhar a ordem: – Vamos nos reunir com Shinon e cair fora daqui. Vamos, com toda força!
Muito mais reforços de Daien apareceram, mas nada conteve os mercenários. Agora divididos em três grupos eles avançavam sobre os soldados procurando reunir-se em uma grande equipe novamente. Quando finalmente alcançou os amigos, Ike correu até eles preocupado.
- Encontrei você, Shinon. Está bem? Algum machucado?
- Eu pareço machucado? Estou bem como sempre. Você deve estar desapontado por Daien não me encher de buracos ainda. – Respondeu Shinon em um tom que Ike não sabia se era arrogante ou debochado – Está na hora de apertar o cinto e seguir em frente. Agora que tenho que carregar sua carcaça inútil por aí, preciso trabalhar duas vezes mais.
Como de costume, Shinon estava sendo desagradável com Ike. Titania escutou e pensou em interferir, mas tinha mais coisas a se preocupar. Quem levantou o espírito de Ike foi Gatrie, que se aproximou do rapaz e colocou sua grande e pesada mão sobre o ombro do garoto.
- Gatrie!
- Tudo bem, Ike? Ouvi que você levou a princesa até Gallia. Bom trabalho! Você é mesmo um herói. Mas… – Gatrie parou de sorrir e fez cara de bravo – Que diabos você pensa que está fazendo voltando aqui?
- Você pode achar que é besteira, mas eu estava preocupado com todos vocês. – Respondeu o garoto sinceramente, e pronto para outra represália.
- Awww… Assim você vai me fazer chorar, seu pirralho tonto! – Ike se assustou ao ver que aquele homenzarrão não estava zombando dele, os olhos de Gatrie estavam cheios de lágrimas – Tudo bem… sniff… Recomponha-se Gatrie. Esta noite, você e eu vamos dividir uma grande refeição e cantar uma ou duas músicas.
Por aquela Ike realmente não esperava. Ele ia pensar em responder quando viu Titania sair em seu cavalo pela mesma porta por onde seu pai e general Petrine passaram. Quase não havia mais inimigos na sala onde eles estavam, então Ike decidiu seguir a mercenária e logo todos estavam atrás dele.
A sala em que Petrine e Greil lutavam era enorme. Ike e os outros entraram correndo, mas Titania fez sinal para que parassem e somente assistissem.
- Maldição! O que é você, homem? – Gritava Petrine furiosa – Você parece um homem comum mas luta como se fosse um demônio!
- Qual problema? – Greil perguntou rindo – Pronta para se render?
- E admitir derrota? Eu? Não seja ridículo…
- Eles estão aqui! – Gritou um soldado que vinha da sala atrás de Petrine – Por aqui!
Logo a sala começou a encher-se de soldados inimigos.
- Droga! Reforços! – Exclamou Ike – Pai! Vamos sair daqui! Tem muitos…
- Parece que não tenho escolha… – Disse Greil voltando em direção ao grupo. Mas não havia por onde ir. Todas as entradas estavam cercadas. A sala agora se tornara pequena e eram cerca de dez soldados para cada mercenário.
- Hahahhaha… Então agora a sorte mudou de lado, não é? – Disse Petrine satisfeita – Todas as tropas, ataquem! Mate todos! Mate todos!
- Hummm… Parece que estamos mesmo sem sorte. – Resmongou Greil para o filho – Você tem que sobreviver a isso, Ike! Eu não vou perder você, não neste lugar. Você está pronto?
- Sim, Comandante! – Respondeu o rapaz segurando firme a espada.
- Vocês não tem para onde ir! – Provocou Petrine – Amaldiçoe todos os deuses que os protegem, eles abandonaram vocês!
Mas talvez não tivesse abandonado. Mal Petrine terminou de falar e vários grunhidos nervosos puderam ser escutados por todo o prédio. Os soldados de Daien começaram a tremer e olhar para os lados.
- O que foi isso? – Ike pensou alto.
- B-b-bestas!!! – Gritou um soldado – Os guerreiros bestas de Gallia!
- Corram!!! Seremos massacrados!!!
- Parados, todos vocês! – Ordenou Petrine – Sem pânico!!! Eu vou pessoalmente estraçalhar o primeiro homem que virar de costas para o inimigo!
Mas os soldados que estavam mais distantes de Petrine não deram ouvidos. Saíram desesperados por todos os lados de modo que apenas os mais próximos à general se mantiveram no lugar.
- Pfeh! Covardes inúteis!
Rapidamente, alguns voltaram para a sala desarmados e gritando.
- As bestas! As bestas estão aqui!
E estavam mesmo. Diversos tigres e panteras invadiram o local. À frente deles, uma pantera azul se transformou no que parecia ser um humano um pouco mais peludo e com rabo e anunciou com autoridade.
- Atenção, soldados de Daien! Deixem este lugar imediatamente! Se não obedecerem irão enfrentar toda a força dos guerreiros de Gallia!
- Podem me ameaçar o quanto quiser. – Disse Petrine sem se mover – Não vão me assustar só com isso. Se eu partir, Vossa Majestade mandará me executar. Prefiro morrer aqui, na batalha, com a minha honra intacta.
Mal a general terminou de pronunciar suas palavras e escutou-se passos pesados vindos em direção ao grupo. Todos se voltaram para o lado e um grande homem, com armadura negra, sem visíveis aberturas entrou no recinto.
- Recue, General Petrine! – Ordenou a voz metálica.
- Black Knight… – Disse.
- Quanto ao seu rei, não há nada a temer. Explicarei os acontecimentos a ele. Pegue seus homens e parta!
Sem questionar a general virou-se com seu grande cavalo e partiu com seus soldados aliviados. Black Knight permaneceu parado onde estava, olhando para o grupo, olhando para Greil.
- Ele está encarando o senhor, não está, pai? – Perguntou Ike sem entender a situação.
- Sim, ele está. – Respondeu Greil encarando de volta.
O clima estava pesado. Ninguém se mexia, ninguém dizia nada. Como uma névoa, um vulto negro se aproximou de Greil e se transformou em uma mulher, com a pele branca como lírio e cabelos e vestes tão negros quanto a armadura do inimigo. Ela se colocou à frente de Greil e disse como se olhasse nos olhos do Black Knight.
- Se pretende fazer algum movimento, esteja certo de que enfrentará todos aqui de uma só vez!
A grande armadura nada disse. Apenas virou-se de costas e desapareceu nos corredores. A mulher virou-se para Greil e ele a repreendeu com o olhar. Ela passou por ele e seguiu por onde os soldados de Daien entraram.
Logo todos estavam saindo do forte. Ao ver seu pai e irmão, Mist correu em direção deles para um forte abraço. Logo atrás dela vinham princesa Elincia e Rolf.
- Mist! Princesa Elincia… por que estão aqui? – Perguntou Ike preocupado.
- A princesa nos encontrou e pediu ajuda para o seu grupo de mercenários. – Respondeu o líder do grupo feral – Por isso viemos.
- Você é um dos sub-humanos de Gallia? – Perguntou Ike.
- Sub-humano? Que arrogância a sua em me chamar assim estando presente. – Questionou nervoso – Acha que só vocês são valiosos o suficiente para serem chamados de humanos? E nós laguz somos tão inferiores que devemos apenas servir a vocês?
- Me desculpe… – Pediu Ike sem jeito – Eu não conhecia outro nome para vocês. Eu te ofendi, peço desculpas. Como devo dizer? Laguz? Assim é mais apropriado?
- Huh? Você mostra modos agora? Que estranho, gostei disso. Agora… que são vocês, exatamente?
- Meu nome é Ike. E nós somos os Greil Mercenaries.
- Eu sou Ranulf, guerreiro de Gallia. Nós não sabíamos o que pensar quando vimos um grupo de beorc andando perdido pelos nossos campos… Imagine nossa surpresa ao ouvir que um deles era a princesa Elincia. Realmente foi um choque. Dois dias atrás Daien proclamou sua conquista. Pensamos que toda realeza de Crimea estivesse morta.
- Conquista? Eles assumiram Crimea? – Perguntou Ike surpreso – Isso significa que…
- Eu também recebi estas notícias de Ranulf… – Interrompeu Elincia – Depois que fugi da capital… meu tio Renning… ele… eu… eu estou sozinha agora…
- Princesa Elincia… – Ike tentou consolá-la, mas a jovem de cabelos negros de antes a segurou num forte abraço.
- Foi por isso que nosso rei ordenou patrulhamento extra na fronteira. – Continuou Ranulf – Se não fosse por isso não teríamos encontrado a princesa. E se não fosse seus aliados não encontraríamos vocês aqui também.
- Entendo… – Comentou Ike.
- Vamos ao prático agora. Antes de tudo, preciso apresentar a princesa Elincia ao nosso rei. Quanto ao restante de vocês, Ike, preciso de uma autorização dos meus superiores. Até lá vocês podem descansar em um antigo castelo dentro de Gallia.
- Entendo. Comandante, isso não será um problema, não é? – Perguntou Ike virando-se para o pai que estava atrás dele, mas distraído – Comandante?
- Huh? O que foi? – Perguntou Greil.
- O que foi? Você não estava prestando atenção? Isso não é do seu estilo. – Ressaltou Ike.
- Eu estava pensando sobre outras coisas. – Disse o comandante voltando ao mundo real e observando o cenário ao redor – Então, o que vocês decidiram?
- Princesa Elincia vai ao palácio com Ranulf. – Respondeu Ike – Nós vamos para Gallia e aguardamos em um antigo castelo. Qual o caminho do castelo, Ranulf?
- Eu prepararei um guia para vocês.
- Não, não precisa. – Interrompeu Greil – Se é próximo podemos atravessar o rio e chegar lá. É Castelo Gebal, não é? Pode ir na frente. Leve a princesa para o rei Caineghis o mais rápido possível.
- Entendido. – Disse Ranulf – Sem, querer parecer presunçoso, posso pedir para levar comida para vocês mais tarde.
- Nós apreciaríamos muito. – Disse Greil – A viagem foi pesada e só tivemos tempo de trazer alguma carne salgada e biscoitos duros.
- Providenciarei isso então. – Continuou Ranulf – Princesa Elincia, podemos ir?
- Fiquem bem, meus amigos. Nós veremos em breve, não é?
- Tome cuidado! – Aconselhou Ike.
Greil não respondeu. Assim que os dois viraram as costas ele chamou.
- Melissa! Você fica de olho na princesa. Não a deixe sozinha.
- O quê? – Exclamou a jovem de cabelos negros que Ike vira hoje pela primeira vez – Você só pode estar brincando!
- Não, não estou! Você mesma disse que Gallia era o lugar mais seguro no momento e que todo esforço de paz é válido. Então pare de me questionar!
- E o Black Knight? – Perguntou a jovem abaixando a voz – O palácio é longe demais para eu chegar em Gebal num salto…
- Isso é problema meu. Agora vai!
A garota virou de costas e seguiu em direção a Ranulf e Elincia descontente. Greil ordenou a todos que se preparassem para partir. Enquanto eles não chegavam, Ike aproveitou a chance para falar com o pai.
- Pai, quem era aquela pessoa?
- O nome dela é Melissa. Uma pessoa em que você pode confiar cegamente, ainda que seus olhos desconfiem do que vêem. Ela será de grande ajuda a você no futuro.
7. Atravessando a fronteira
Após se dividirem em dois grupos, Ike e os mercenários seguiram até o final da floresta, onde um riacho representava a fronteira entre Crimea e Gallia. Para a surpresa do grupo, do outro lado do rio havia um bloqueio feito por soldados de Daien.
- Então, eles realmente estavam esperando por nós… – Disse Ike ao ver os soldados, ainda dentro da floresta.
- Tem… muito mais soldados do que eu imaginava. – Disse Soren preocupado – Pensei que eles tivessem sem espalhado por toda a borda da floresta, não esperava ver tantos deles em um só lugar.
- Devemos repensar nossa estratégia? – Perguntou Ike.
- Não, nós já nos separamos – Respondeu o mago – É tarde demais para reconsiderar.
- Não tem pelo menos uma forma de levar a princesa, Mist e Rolf para lá com segurança? – Perguntou Ike.
- Tem duas pontes… E os arbustos levam para próximo da ponte a oeste. Se pudermos usar as árvores como cobertura, podemos ser capazes de alcançar a ponte sem sermos detectados. De lá, nós lançamos um ataque surpresa. Enquanto prendermos a atenção do inimigo, a princesa e os outros podem cruzar a ponte com segurança. – Soren explicou a estratégia que acabara de elaborar.
- Não temos tempo para pensar em alternativas, vamos seguir com este plano. – Afirmou Ike.
- Lord Ike… – Chamou a princesa – Eu vou lutar com você!
- Não, não vai. – Exclamou o rapaz incisivo – Não vou deixar você expor a si mesma a nenhum tipo de perigo. Todos aqui estão arriscando suas vidas para garantir a sua segurança. Se você entender isso, vai cooperar e fazer o que digo.
Por um momento a princesa ficou angustiada com a atitude de Ike, mas compreendeu a preocupação dele. Entendo… – Disse – Farei minha parte.
- Muito bem então! – Interrompeu Titania.
- Certo! Vamos quebrar a defesa deles! – Disse Ike – Mist! Rolf! Cuidem da princesa. Cuidado para não serem vistos!
- Certo! Todos vocês, tomem cuidado! – Pediu a irmã.
As crianças e a princesa seguiram de volta para dentro da floresta, enquanto Ike e os mercenários seguiram para enfrentar os soldados inimigos. Rolf subiu na árvore mais alta que encontrou para poder observar melhor a batalha, de lá ele dava informações às meninas do que estava acontecendo. Do alto, Rolf pode conhecer um pouco mais da intimidade e confiança de batalha de seus amigos. Titania e Oscar sempre abriam caminho e chamavam a atenção a si com seus grandes e rápidos cavalos. O machado de Titania nunca errava um alvo e a lança de Oscar parecia ficar mais certeira a cada inimigo. Atrás deles, Ike e Boyd seguiam confiantes. A força dos dois era impressionante, a maior parte dos inimigos caía com um ou dois golpes. Por fim, Soren, usando Ike como escudo, atacava à distância e Rhys seguia logo atrás, para ajudar caso alguém se machucasse. Rolf estava um pouco confuso com tantas coisas acontecendo, até que pareceu ouvir o vento dizer “Agora!”. Imediatamente ele desceu da árvore, encaminhou as duas garotas pela ponte oeste e, sempre escondidos, passaram por detrás dos soldados sem serem vistos. Mesmo depois de passarem pela barreira, os três ficaram escondidos por um bom tempo, até que os outros apareceram. Já começava a escurecer, então decidiram acampar no início de outra floresta que parecia surgir.
Ike passou a noite em claro, preocupado com seu pai e os companheiros. Aos primeiros raios de sol, todos estavam despertos e reunidos.
- Acredito que não conseguiremos descansar até que os outros se reúnam a nós. – Afirmou Soren expressando os sentimentos de quase todos presentes.
- Estamos falando do comandante. – Disse Titania confortando o grupo – Não acho que precisemos ficar preocupados.
Apesar das palavras confiantes da mentora, Ike não se sentiu confortado. Levantou-se e se dirigiu à princesa.
- Princesa Elincia, receio que teremos que nos separar aqui. – Disse determinado.
- Como assim? – Perguntou a jovem preocupada.
- Nós vamos voltar para ajudar nossos companheiros. – Respondeu – Quero que continue o caminho com Mist em direção ao palácio real de Gallia.
- O quê? Não! – Pestanejou a irmã mais nova – Eu vou ficar com você!
- Me escuta, Mist! A gente tem que fazer assim para que todos saiam dessa vivos! O pai e eu vamos buscar você assim que nos encontrarmos! Não se preocupe. Alguma vez nós quebramos uma promessa com você?
- Bem… não. – Respondeu a garotinha com os olhos cheios de lágrimas – Tudo bem. A gente vai na frente.
- Obrigada, Mist! – Agradeceu Titania – Nós vamos nos reencontrar em breve.
- Tudo bem, Titania. Por favor, toma conta do meu irmão, promete?
- Você tem a minha palavra.
Há alguns passos dali, os três irmãos também estavam reunidos.
- Oscar… Boyd… Não vão morrer por lá, tá bom?
- Rolf… – Oscar não tinha palavras para dizer ao caçula. Desde que seus pais morreram, tudo que Oscar fez foi em função dos irmãos. A missão de proteger a princesa é a única que ele não tem certeza do sucesso. Arriscar a si mesmo e a seus irmãos nunca fora sua intenção.
- Parem com isso, vocês dois! – Gritou Boyd tentando desfazer o excesso de emoção no ar – Vocês parecem duas velhas. Nós vamos ficar bem. Nada de mal vai acontecer enquanto eu estiver por perto.
Rolf se convenceu, lembrando das duas vezes que vira os irmãos lutando, sempre juntos, sempre protegendo um ao outro. Ike tentou partir sem se despedir como seu pai fazia, mas não conseguiu. Todos trocaram desejos de boa sorte e, por fim, se separaram.
Longe dali, uma pessoa observava as atitudes dos mercenários. “Garoto cabeça-dura como o pai e coração-mole como a mãe. Ele vai dar trabalho. Talvez esteja na hora de começar a interferir de vez, ou estas crianças estarão perdidas antes de atingirem o objetivo real da missão.”
6. Aviso
Greil, Shinon e Gatrie seguiram em direção a leste por um tempo até saírem da floresta. Havia soldados de Daien vigiando por toda a parte. O plano era simples e sempre funcionava: Gatrie chamava a atenção deles, Greil vinha por trás atacando ferozmente e Shinon surpreendia com suas flechas certeiras. Foram horas a fio de combate, até que os soldados pararam de aparecer. Exausto, Gatrie sentou bruscamente no chão com sua pesada armadura, fincando a grande lança ao lado.
- Ah! Esses caras não são de nada, mas são tantos que chega até a cansar.
- Levante-se! Não temos tempo para isso, o alvo principal ainda está à frente. – Ordenou Greil.
- Tem mais??!! – Perguntou Gatrie surpreso – Como assim?
- Mais para frente tem um antigo forte abandonado que costumava proteger a fronteira de Gallia. Daien não estaria com um grupo tão numeroso sem uma base local. – Respondeu o comandante.
- Então vamos invadir o chiqueiro dos porcos? Isso vai ser divertido! – Comentou Shinon.
O grupo viajou por mais algumas horas, até que finalmente puderam avistar o forte que Greil dissera.
- Vamos descansar aqui e nos preparar, quando a lua estiver alta atacaremos, será mais prudente atrasá-los sem enfrentar todos eles.
Gatrie e Shinon não fizeram perguntas, conheciam os riscos da missão e isso os inspirava mais a ficarem concentrados e seguir adiante. Todos se alimentaram bem, descansaram e conferiram as armas. Já havia escurecido e Greil se levantou para dar uma última verificada, quando uma voz feminina veio do interior da floresta: – Não aconselho vocês a entrarem ali.
Os três, que não haviam percebido a presença de ninguém se aproximando, pegaram rapidamente suas armas e apontaram em direção da voz, que surpreendente era de uma garota ruiva, sentada à beira de uma árvore, iluminada por insetos. Shinon foi o primeiro a falar em tom ameaçador.
- Quem é você? O que faz aqui?
- Apenas tentando evitar ter que cumprir uma promessa que fiz. – Respondeu a jovem olhando diretamente ao comandante.
- Bom saber que você levou aquilo a sério. – Disse Greil abaixando o machado e fazendo sinal para os outros abaixarem suas armas também.
- Conhece essa deus… quer dizer… essa moça, comandante? – Perguntou Gatrie fincando a lança novamente no chão.
- Sim. Ela é de confiança, não se preocupem. – Respondeu ele se aproximando da moça – Belo disfarce, quase me enganou.
- Obrigada! – A moça sorriu – Desde o massacre na floresta dos herons têm ficado cada vez mais difícil andar tranquilamente por aí, sempre aparece uns caçadores irritantes.
- Vá direto ao assunto, rainha, estamos com um pouco de pressa.
A jovem bufou e franziu a testa por ter sido chamada de rainha de novo, mas desistiu de brigar novamente por causa disso.
- Ainda precisa falar? Dentro daquele forte tem cerca de 100 inimigos para cada um de vocês, sem contar na presença de um dos Quatro Grandes Generais.
- Então o rei de Daien ainda mantém a tradição dos Quatro Generais? Bom saber, isso deixa a festa um pouco mais divertida. – Disse Greil.
- Pela Deusa!!! – Exclamou a jovem incrédula – Esses caras não se comparam aos Generais de vinte anos atrás. Eles são malucos, cruéis e doentes por destruição. Você não precisa fazer isso para proteger a princesa e o outro grupo! Ao ouvir estas palavras, Gatrie e Shinon voltaram a ficar alerta.
Shinon pegou novamente seu arco e apontou para a moça.
- Como sabe disso? Há quanto tempo está nos seguindo? – Interrogou.
- Desde que partiram. – Respondeu a jovem enquanto, com o movimentar de um dedo, transformava a flecha de Shinon numa rosa negra.
- Você mesma disse que não haverá paz enquanto ele não for parado. – Disse Greil ignorando as ações de Shinon – Vou fazer o que acho que devo fazer e não vou cair aqui. Não preciso de sua vigilância.
A jovem encarou o comandante Greil por alguns segundos até finalmente ceder.
- Cabeça-dura demais… Muito bem, como quiser, vou voltar para próximo das crianças. Se eu fosse você, antes de invadir o castelo daria uma olhadinha no norte da estrada, talvez você encontre pessoas interessantes… – E desapareceu tão silenciosamente quanto apareceu.
Greil voltou para buscar o machado, quando Gatrie, sem conseguir controlar a curiosidade, perguntou: – Comandante, o que foi aquilo?
- Uma Eterna, amiga da minha falecida mulher. Vamos, temos muito trabalho a fazer. – Greil não tinha intenção de prolongar a conversa. Em silêncio eles seguiram adiante.
5. Divididos
Era uma longa viagem do forte dos mercenários ao castelo de Gallia. O território de Crimea e Gallia era dividido por uma grande cordilheira e uma imensa floresta, tão fechada que a luz do sol pouco passava por ela. Elincia ficou admirada como um grupo com pessoas tão jovens era capaz de agüentar tantas provações naturais sem pestanejar, bom ao menos quase todos. Dois dos mais velhos e experientes mercenários do grupo eram os únicos que reclamavam constantemente da situação. Gatrie sempre queria se livrar de sua armadura e Shinon ainda não aprovava nem um pouco a idéia de viajar para Gallia. Ike procurava durante todo o caminho perguntar e conhecer mais sobre as criaturas ferais que iriam encontrar e sua cultura. Elincia, Mist e os outros também interagiam, cada um auxiliando o outro à sua maneira. Por fim, após dias de viagem em mata fechada, eles finalmente encontraram uma clareira. Mas antes de se aproximarem dela, Greil reuniu novamente o grupo.
- Atenção todos! Estamos chegando ao final da floresta. Preparem-se. Formação de combate.
- Duvido que nossos perseguidores nos deixem fugir assim tão facilmente. – Comentou Titania.
- Sem dúvida eles atacarão novamente. – Disse Soren – Sem termos conhecimento do número deles é difícil definir como agir.
- Faça o seu melhor, Soren. – Solicitou Greil – Com as informações limitadas que temos, qual a melhor forma de seguirmos?
- … Alguns do nosso grupo não podem lutar. Se formos pegos nós teremos muitos problemas em protegê-los e atacar Daien. Proponho que nos separemos em dois grupos: uma pequena força-tarefa enfrentará o inimigo de frente e ganhará tempo para o outro grupo passar com maiores chances de proteger a princesa.
- Você quer dividir nossas forças de combate? – Questionou Oscar incrédulo – Com o grupo principal distante, você não acha que o risco para o grupo menor é muito grande?
- Eu acredito que a melhor forma de chegarmos ao nosso objetivo é manter o mínimo de casualidades. – Respondeu Soren friamente – É possível que haja uma armadilha para nós esperando no final da floresta. Se seguirmos sem nenhum plano podemos ser pegos agora e será o fim de todos nós.
- Parece que não temos opção além de arriscar. – Afirmou Greil imponente – Muito bem, vamos nos dividir. O time chamariz será Gatrie, Shinon e eu. O restante proteja a princesa Elincia e partam diretamente para Gallia. Entendido?
- Tem certeza que está levando pessoas o suficiente? – Questionou o filho.
- Criança idiota. – Interrompeu Shinon – Grupos menores significam melhor mobilidade. Você perderia menos tempo se estivesse preocupado com seu grupo ao invés de nós.
Ike não respondeu à grosseria do companheiro. Apenas abaixou os olhos e se afastou.
- Escutem! – Greil chamou a atenção de todos mais uma vez – Esta provavelmente será a maior luta que nosso grupo já se deparou. Lembrem-se: vocês só têm uma vida, não quero a morte de nenhum de vocês nas minhas costas. Em tempos como estes, não importa que laços de sangue temos. Nós somos uma família. Se você não quer causar nenhum problema para sua família, então viva! Ike comandará o grupo principal. Titania, você dará suporte a ele. Muito bem, mexam-se! Nos encontramos todos em Gallia!
Greil, Shinon e Gatrie partiram sem despedidas. Greil uma vez dissera ao filho que não havia necessidade de despedidas quando se tem certeza de haver um reencontro. Agora seriam três contra um exército, não havia certeza do reencontro, mas havia a esperança que o silêncio da partida trazia.
4. A princesa de Crimea
Um dia se passou desde que Ike trouxera a moça para o forte. Shinon ainda estava nervoso com a arrogância de Ike e Soren, mas o restante dos mercenários somente pensava na jovem e que notícias ela poderia trazer. No final daquela tarde, a moça acordara. Mist que estava cuidando diretamente dela, correu para avisar.
- Papai! Irmão! A moça que Ike resgatou… Ela acordou! – Chamou a garota com natural felicidade.
- Mesmo? – Perguntou Ike.
- Vamos! – Chamou Greil austero – Vamos dar boas-vindas à nossa convidada.
A moça estava sentada na cama, quando Mist, Ike e Greil retornaram.
- Então, como está se sentindo? – Perguntou Greil logo ao entrar.
- Oh, eu… Eu estou bem… Quem é você? – Perguntou a jovem ainda assustada.
- Meu nome é Greil. Sou o comandante desta companhia de mercenários. – Respondeu.
- Lord Greil… Foi o senhor quem veio a me socorrer? Não sei como agradecer…
- Espere um pouco. – Interrompeu Greil – Quem a encontrou e trouxe aqui foi meu filho, Ike. Se quer agradecer a alguém agradeça a ele.
- Não, por favor, não é… – Ike tentou se desviar.
- Lord… Ike, não é? – Continuou a jovem – Tem a minha gratidão. Ike ficou envergonhado, sem saber o que fazer, mas logo foi interrompido pelo pai.
- Desculpe minha brutalidade. – Disse Greil à jovem – Mas tenho algumas perguntas a fazer. Quem é você? O que fazia num lugar como aquele?
A jovem fechou os olhos e baixou a cabeça, mas Greil continuou.
- O lugar que Ike a encontrou era evidentemente um dos pontos de batalha entre os exércitos de Daien e Crimea. Você tem alguma relação com a família real de Crimea?
A jovem corara e seu coração disparara nervoso.
- Não posso prometer nada. – disse Ike – Mas talvez a gente possa te ajudar. Poderia partilhar sua história?
Ela olhou para os salvadores e, sentindo segurança, decidiu falar.
- Você me resgatou e cuidou de mim. Eu vou… confiar em vocês. Meu nome é Elincia Ridell Crimea. Eu sou a filha do rei Ramon de Crimea.
- O quê? – Ike deu um salto surpreso.
- Você disse que é a princesa de Crimea? – Perguntou Greil igualmente surpreso .
- Sim.
- Esta é uma estranha colocação. – Continuou Greil – Eu nunca ouvi falar no Rei de Crimea ter filhos.
- Isso… era de ser esperado. – Disse Elincia – Minha herança, minha existência, nunca se tornou pública.
- Por que isso? – Perguntou Ike.
- Para evitar um tumulto geral. – Respondeu a jovem – Entenda, eu nasci depois de meu tio, Lord Renning, ser nomeado sucessor do trono. Então…
- Eles mantiveram você em segredo para evitar uma briga de sangue. – Completou Greil – Bem, sou capaz de aceitar isso no momento. Muito bem, vamos supor que você realmente é a Princesa de Crimea, você deve saber o que aconteceu com seu pai e tio. Eu gostaria de ouvir as notícias.
- … Meu pai e minha mãe estão mortos… – Disse a princesa com olhar ao chão – Foram assassinados pelas mãos de Ashnard, Rei de Daien… Meu tio e os cavaleiros reais ainda estão lutando junto ao exército, eu acredito.
- Entendo. – Disse Greil austero.
- … Eu… fugi do castelo… para seguir as ordens de meu tio e procurar refúgio no reino de Gallia…
- Em Gallia? – Perguntou Greil curioso. – Sim… nós acreditamos que o Rei Caineghis aceitaria me asilar. Era para lá que eu estava indo… mas fomos descobertos pelas tropas de Daien e eu perdi os cavaleiros que me escoltavam… Minha vida, a vida que tenho agora, foi preservada com o sangue daqueles bravos cavaleiros…
- O rei de Daien sabe de sua existência? – Questionou Ike.
- Sim. Me disseram que a realeza de todas as nações foram informados de minha existência devida dura circunstância…
- Neste caso eles devem estar procurando exaustivamente por você. – Comentou Greil.
Um silêncio momentâneo dominou o ambiente, até ser quebrado pela princesa.
- Mestre Greil, lord Ike, vocês afirmaram que são mercenários, não é? Por favor… me auxiliariam a alcançar Gallia? Eu imploro! Não tenho… não tenho mais ninguém a quem possa recorrer!
Greil pedira para a princesa descansar um pouco enquanto conversava com sua equipe. Enviou Ike para convocar os mercenários enquanto refletia sozinho sobre a situação. Lembrara do conselho que ouvira poucos dias antes: “Todo esforço para se restabelecer a paz é válido e deve receber confiança.”. Se esta jovem realmente fosse princesa de Crimea, com a ajuda dos ferais de Gallia, talvez a paz pudesse ser restabelecida antes do que ele imaginava. Greil olhara para fora, em busca da iluminação do sol, quando vira uma legião de soldados em armaduras negras, quase simultaneamente aos gritos do pequeno Rolf, o mais jovem dos três irmãos de cabelos verdes.
- Nós temos problemas! – Gritava o menino de pouco mais de 10 anos – Lá fora! Tem soldados! Um monte deles!
- O quê? – Ike exclamou assustado enquanto Greil se aproximava.
- Estão todos aqui? – Questionou Greil.
- Sim. – Respondeu Titania.
- Comandante, o que esses cães de Daien estão dizendo? – Perguntou Shinon impaciente.
- “Devolvam a princesa de Crimea e deixem a área imediatamente. Cooperem agora ou atacaremos.” Bem diretos.
- O que vamos fazer? – Perguntou Gatrie.
- Isso é o que vamos decidir aqui. – Respondeu o comandante. – Uma coisa ficou clara com a chegada de nossos amigos lá fora.
- Quer dizer que este ataque confirma a identidade da princesa de Crimea, não é? – Soren antecipou o raciocínio do comandante.
- Sim, mas o que faremos agora? Quero ouvir a opinião de cada um aqui. Titania, você primeiro.
- A culpa desta guerra é de Daien. – Disse a amazona decidida. – Se nós nos aliarmos a eles agora a reputação desta companhia ficará comprometida. Entretanto, se entregarmos a princesa em segurança, seremos bem visto pelos nossos empregadores primários. O caminho é claro.
- Soren, e quanto a você? – Continuou Greil.
- Não há nada o que pensar. – Disse no tradicional tom áspero – Devemos entregar a princesa a Daien imediatamente.
- Mesmo se Crimea está em jogo? – Questionou o comandante.
- Somos mercenários. – Respondeu o mago – Nossas ações são determinadas pelo nosso próprio interesse. Se queremos garantir nosso futuro precisamos que Daien tenha uma dívida conosco. Eles vão vencer essa guerra, afinal de contas, e nada é melhor para nós que isso.
- Shinon? Gatrie? – Greil mudou o rumo da conversa.
- Soren é um moleque pomposo e metido – começou Shinon – mas ele sabe o que fala. Além do mais, Gallia é um destino bastante questionável. Não me importa o quanto paguem para a gente, não tem nada que me faça me meter no território das bestas.
- Princesa Elincia… – Gatrie interrompeu o amigo – ela tem uma certa beleza real… tem muito o que se ver ali, entende. Mas acho que prefiro as garotas camponesas, um pouco rústicas mas sem frescuras… Ah! Esqueça que eu disse isso! O que você decidir está bom pra mim, Comandante.
- Oscar, Boyd, e quanto a vocês dois? – Perguntou o comandante.
- Concordo com a sub-comandante Titania. – Respondeu o irmão mais velho – Se entregarmos a princesa ao exército de Daien, estaremos dando permissão a eles para matá-la.
- Eu sou a favor de ajudar. – Disse Boyd, o irmão do meio – Isso é o que heróis devem fazer.
- Bem, Rhys, qual a sua opinião? – Perguntou Greil.
- Eu acho… – Disse o jovem curandeiro com voz doce – que não importa se ela é uma princesa ou não. Recusar a ajuda a alguém é algo que nunca devemos fazer. Isso é o que penso.
- É isso aí! – Rolf interrompeu animado – Vamos ajudar a moça!
- Por favor! – Pediu a pequena Mist ao lado do pai – A gente tem que ajudar ela!
- E quanto a você, Ike? – Continuou Greil.
- Eu concordo com Titania. Digo que temos que ajudar e dar escolta até Gallia.
- Certo. – Disse Greil guardando para si o orgulho que tinha de seus filhos – Acho que sei onde todos se posicionam. Bem, esta é minha decisão. Iremos escoltar a princesa até Gallia.
A frase fora visivelmente desaprovada por Soren e Shinon.
- Você tem certeza disso? – Perguntou Ike.
- Sim. – Respondeu o pai – Além disso, acho que a decisão não está mais em nossas mãos.
- Como assim? – Perguntou Ike. – Abram seus ouvidos e escutem. Escutem. Todos vocês.
- Huh…? – Boyd se manifestou – O que é?
- Uh… não escuto nada. – Disse Gatrie.
- Idiota! Esse é o problema! – Shinon deu um tapa na cabeça de Gatrie – Não acha isso muito estranho? Silencio completo, nas quatro direções.
- Ah! Disso que você estava falando! – Gatrie finalmente percebera.
- Não só os animais estão quietos, mas os insetos estão em silêncio também. – Complementou Oscar – Isso é um acontecimento fora do natural. O que significa…
- Que estamos cercados. – Finalizou Ike – Os soldados não estão esperando por uma resposta. Eles já decidiram atacar.
- Aparentemente eles não tinham a intenção de manter a palavra deles na negociação. – Comentou Titania.
- Eles estavam planejando nos colocar num falso sentimento de segurança e destruir a todos nós. – Disse Soren levemente nervoso.
- Provavelmente. – Complementou o comandante – Mas a questão é que não somos tão inocentes ou inexperientes para cairmos na armadilha deles. Todo mundo em suas posições! Vamos resolver isso agora!
Mist e Rolf subiram para o quarto da princesa no segundo andar. Elincia abraçava os dois enquanto via pela janela o restante dos mercenários saírem da casa principal e se dividirem pelas três entradas do forte. A casa principal era bastante longe das muralhas, portanto não corriam risco de uma flecha, lança ou magia chegar até eles, mas ainda assim eles mantiveram as janelas com os vidros fechados e assistiam escondidos. Mist tremia, o medo era visível em seus olhos, Elincia a abraçava mais forte, tentando passar uma sensação de proteção.
Lá embaixo, comandante Greil fora sozinho proteger a entrada da direita, um pouco mais estreita e distante que as demais. Os irmãos Oscar e Boyd, juntamente com Shinon, seguiram para a entrada da esquerda. Gatrie, Titania, Soren e Ike protegeriam a entrada principal e Rhys permaneceria entre os dois grupos, para dar assistência quando solicitado.
Pela primeira vez Mist e Rolf puderam ver seus irmãos em um combate. Mist se exaltava cada vez que um soldado se aproximava de Ike, Rolf torcia animado e gritava incentivando. Elincia tinha medo que o grupo se machucasse, sentia que não se perdoaria se alguém ali sofresse por culpa dela. A batalha se prolongou por muito tempo até que, depois de ter quase todos os soldados derrotados, Daien decidira bater em retirada. Os três respiraram aliviados quando viram o grupo se afastar, todos orgulhosos do trabalho que acabaram de ver.
Minutos depois as entradas foram trancadas e todos voltaram para a casa principal. Mist, Rolf e Elincia correram para a entrada da casa e logo se encontraram com Greil e o grupo.
- Não temos tempo para descansar! – Ordenou Greil com autoridade – Todo mundo empacotando as coisas agora! Vamos partir antes que o inimigo traga reforços!
- Entendido! – Respondeu Oscar que estava ao lado de Greil – Boyd! Venha comigo.
- Logo atrás de você, irmão!
- Ah! Temos que nos apressar também! – Disse a pequena Mist empolgada – Vamos, Rolf! Nós temos que embrulhar toda comida e suprimentos que pudermos!
- Uh, como quiser! Vamos, Mist!
Tão logo as crianças se afastaram e Greil já planejara a fuga.
- Titania! – Chamou – Pegue Shinon e Gatrie e encontre uma rota segura daqui até a grande floresta. Nós vamos para Gallia por dentro do mar de árvores.
- A caminho, senhor! – Respondeu a bela amazona.
- Rhys, você fica comigo. – Ordenou Greil ao jovem curandeiro – Quero que me ajude a guardar os documentos essenciais da biblioteca. Todo o resto nós queimaremos.
- S-sim, senhor!
- Ike! Você está encarregado da princesa. – Ordenou ao filho.
- Tudo bem. – Respondeu o garoto enquanto o pai se afastava e Elincia se aproximava – Princesa Elincia! Vou preparar um cavalo para você. O que você poderia fazer… ah, já sei… vá para o salão principal.
- Como?
- O tempo vai passar mais rápido se você estiver ajudando Mist do que se ficar aqui sentada esperando por mim.
- Oh, entendi. Posso fazer isso! – Exclamou a jovem educada.
Elincia entrou na casa principal e foi procurar por Mist, que estava no depósito separando os alimentos menos perecíveis. Mist se assustou quando a princesa disse o que fora incumbida de fazer, mas aceitou a ajuda e as duas começaram a conversar enquanto trabalhavam.
- Desculpa, isso é tão estranho! – Disse a menina – Fazer uma princesa ajudar a embalar as coisas…
- Por favor, não se preocupe Mist. – Elincia respondeu gentilmente – Só espero que eu não acabe te atrasando ou ficando no seu caminho.
- Não seja boba! – Brincou a jovenzinha animada – Você é bem melhor nisso do que eu. É uma grande ajuda! Todas as princesas são como você? Boas em todas as coisas que fazem?
- Haha! Não fui criada na corte, então minha vida foi um pouco diferente das outras princesas. Eu sei cozinhar, limpar, bordar… Aprendi a fazer todas essas coisas.
- Mesmo? Estou surpresa. Nunca ia imaginar isso só de olhar pra você.
- Deixa eu ver, eu também sei comandar cavalos, pratiquei luta com espada… – Enquanto falava Elincia percebeu uma luz vindo de Mist – Ah, Mist. O que é isso no seu pescoço?
- O quê? Oh, ah… – A menina olhou para baixo e retirou o pingente que carregava dentro da blusa – Acho que posso mostrar a você…
- Oh… É lindo… Um medalhão incrível, não é? Fico imaginando o que é essa luz.
- Ele costumava pertencer à minha mãe. – Disse a menina com saudosismo – É tudo que tenho para me lembrar dela. Hmmm… Eu não sei de onde essa luz vem. Não costumava ser assim. Algum tempo atrás que começou a brilhar.
- O mundo é tão cheio de mistérios, não é? Mas uma coisa é certa… realmente é lindo.
- Fico imaginando o que será que isso significa…
O grupo terminou de empacotar tudo e em poucas horas estavam prontos para a viagem. Mist deu um último olhar ao forte onde crescera e partiu, sem previsão de saber quando voltaria para casa.
3. Primeiro contato
A leste, Ike e os mercenários seguiam o caminho em direção a Melior. O sol começava a baixar quando chegaram a um campo aberto, no alto de uma escarpa. Após horas de viagem, Rhys decide conversar com Ike.
- Está se sentindo bem, Ike? – Perguntou o jovem sereno – Você não disse uma palavra já faz um tempo.
- Não entendo o que meu pai está fazendo. – Respondeu preocupado – Por que colocar um novato como eu encarregado de algo tão importante?
- Você vai suceder ele como nosso comandante um dia. – Respondeu Rhys – Você não acha que ele quer que você sinta como é liderar?
- Eu? – Questionou Ike – Eu não… eu não sei se sou capaz. E mesmo que eu seja, tem um longo caminho até lá, certo? Quero dizer, sou inexperiente, fraco. Não sou nada comparado ao meu pai.
- Não tenho tanta certeza disso. – Continuou Rhys sorrindo – Quando olho para você vejo um jovem rapaz compromissado. Comandante Greil é um grande homem, mas… acho que um dia você vai se tornar tão grande quanto ele. Com o tempo, talvez até seja maior que ele.
- Não seja ridículo! – Retrucou Ike.
- É só minha opinião. – Não precisa levar tão a sério. Mas, se você se acha fraco demais, por que não aproveita esta oportunidade para melhorar suas habilidades? Isto estaria mais de acordo com a sua personalidade, não é?
- Acho que você está certo. – Respondeu Ike mais calmo.
O restante do grupo, que havia ido investigar a região, começava a retornar para a localização de Ike.
- Como estão as coisas por lá, Soren?
- A mesma coisa que por aqui, corpos espalhados por todos os lados. Há muitos deles, especialmente se considerar que ainda estamos bem longe da capital. – Respondeu Soren.
- São todos de Crimea? – Perguntou Titania
- Julgando pelas armaduras… – Respondeu Rhys – a grande maioria são soldados de Daien.
- Então Crimea está em melhores condições na batalha? – Perguntou Ike.
- O oposto. – Respondeu Soren ríspido – Os soldados de Crimea eram membros da Guarda Imperial. Isso significa que o Rei Ramon, ou outro membro da família real, estava em fuga quando os soldados de Daien apareceram.
- Poderia ser Lord Renning? – Perguntou Titania.
- Não. – Respondeu Soren – Enquanto o exército de Crimea respirar, Lord Renning estará no comando dele. Talvez outro membro da corte…
- Nós temos soldados de Daien vindo em nossa direção! – Avisou Gatrie que chegava apressado – E eles não parecem felizes!
Não demorou muito para que o exército em ébano chegasse. Havia muitos soldados, lanceiros, espadachins, arqueiros, cavaleiros e magos. Assim que alcançaram uma distância segura, o capitão de Daien se pronunciou:
- Vocês aí! Quem são vocês? O que estão fazendo aqui?
- Não somos ninguém que o senhor precise… – Tentou responder Titania.
- Vocês estão armados! – Gritava o homem – Abaixem as armas e se rendam! Sejam rápidos!
- Escuta aqui, idiota! – Disse Shinon irritado – Você está cometendo um engano. Nós não…
- Ah, não vão cooperar, não é? – Interrompeu o capitão – Preparem suas armas, homens! Mexam-se e matem todos!
- Tsk! Cabeças de vento! – Xingou Titania colocando seu machado em posição.
- Ser capturado numa batalha não estava nos planos… – Comentou Soren incomodado.
- Mas eles obviamente não vão nos escutar. – Interrompeu Ike e, sem perceber, deu sua primeira ordem – Mercenários de Greil! Preparem-se para a batalha!
Em poucos minutos eles estavam cercados. Os soldados de Daien eram bem equipados e numerosos, assim como Soren havia descrito no forte. Havia praticamente cinco soldados para cada mercenário.
- Muito bem, Ike. – Shinon dirigiu-lhe a palavra provocando-o. – Vamos ver como você se lida na posição de capitão. E então? Quais são as ordens? Nós faremos o que você disser, desde que seja rápido e bote pra fora!
- Eu sei, eu sei, estou pensando! – Disse Ike nervoso – Me dê um momento, tá certo, Shinon?
- Bah, inútil! – Resmungou Shinon – Eu estaria melhor com a Mist do que com esse moleque mole e devagar.
- Deixa eu ver… – Ike pensou alto – Estamos no meio de uma estrada e não tem muitas áreas cobertas. Soren e Rhys são vulneráveis, então temos que protegê-los dos ataques inimigos, certo?
- Isso parece uma estratégia, Ike. – Complementou Soren – Eu posso atacar por detrás das nossas defesas. Bem pensado.
- Está falando sério? – Perguntou Ike surpreso – Hummm…. certo! Vamos fazer isso então.
Gatrie, Shinon e Titania, mais experientes, tomaram a frente e, juntamente com Ike, seguiram formando uma barreira que protegia Soren e Rhys. Soren utilizava os companheiros como escudo e, de longe, lançava suas magias de vento contra o inimigo. Rhys seguia próximo a ele, usando seu poder de cura nos companheiros tão rápido que nem precisavam se afastar para isso. A estratégia funcionou plenamente, em algumas horas já estava perto o suficiente do capitão da armada de Daien. Titania foi a primeira a chegar próximo o bastante para iniciar um ataque.
- Eu lutei no exército de Crimea antes. – Disse-lhe o capitão de Daien – A Guarda Imperial possui algumas habilidades, mas o restante é digno de piada. De qual deles você se mostrará ser? Hmm? Talvez você me ofereça alguma diversão, apesar de tudo.
- Se você nos atacou achando que éramos do exército de Crimea cometeu um engano. – Disse Titania ignorando as provocações do homem – Eu deixei meu posto anos atrás. Agora não sou nada além de uma mercenária comum.
- Isso não significa nada para mim. – Exclamou o capitão – Vocês não são de Daien, estão armados e estão aqui. É nosso trabalho destruir vocês. Simples, não é? Venha, prepare-se!
- Eu esperava poder evitar derramamento de sangue, mas parece que não vou conseguir. – Disse Titania lamentando-se – Se é assim que deseja, não vou voltar atrás!
Titania correu ao lado do capitão e, do alto de seu cavalo, atacou fortemente com seu machado. O homem retrucara, mas a lança dele quase não a tocou. Em um novo impulso, ela o acertou com o machado pela segunda vez. Ike, que se aproximava, ficou impressionado com a demonstração de força de Titania, ele sabia que ela era boa, mas aquilo realmente o surpreendera. Soren, de acordo com a estratégia, se aproximara por trás da amazona e se concentrava para lançar sua magia. O capitão, ainda que tivesse Titania na frente dele, viu a chegada do pequeno rapaz.
- Um mago, não é? Preciso me cuidar com você por perto, não importa quão jovem seja.
- Você forçou este combate. Não podemos permitir que volte impune para casa. Pronto para morrer? – Disse Soren seguro e impiedoso. O jovem fechou os olhos, ergueu o braço direito e lançou a magia sobre o capitão de Daien, que imediatamente caíra de joelhos no chão.
- Gwaa… haa… Maldição… – Gemia o capitão diante do poder dos ataques de Titania e Soren – Vão se arrepender da decisão de se oporem a Daien… – E caiu com sua pesada armadura no chão gramíneo manchado de sangue.
Ike se surpreendera com a frieza do amigo na batalha, mas sabia que não era momento para isso. Percebendo que não restaram mais soldados inimigos, aproximou-se do grupo.
- Temos algum ferido? – Perguntou ainda correndo em direção aos companheiros.
- Alguém machucado ou morto? – Perguntou Titania também chegando ao grupo – Não? Excelente! Bom trabalho!
Gatrie seguia em direção ao grupo, respirando descansado.
- Eu não sei… Derrotar esses soldados de Daien talvez tenha sido um péssimo movimento. – Enquanto vagava, vê Shinon abaixado sobre um soldado e chama a atenção dele – Hey, Shinon… o que está fazendo?
- Esses porcos tem ótimas armas. – Respondeu o arqueiro – Além disso, ele não vai reclamar. Não vai precisar disso no lugar onde está indo.
Ao escutar aquilo, Ike, nervoso, seguiu em direção aos dois, seguido por Soren.
- Shinon! – Ike reprimiu-o bravo.
- Controle-se! – Complementou Soren – Não podemos aceitar este comportamento agora. Roube dos mortos no seu tempo livre.
- O quê? – Protestou Shinon – Seu pequeno…
- Soren! Shinon! Parem com isso agora! – Interferiu Titania nervosa com a situação – Aqui não é lugar para perdermos tempo discutindo entre nós.
- Vamos cair fora daqui. – Disse Ike dando um fim definitivo ao assunto – Temos que reportar ao comandante o ocorrido.
- Vamos pegar esta trilha. – Sugeriu Soren – Podemos cortar por dentro da floresta e… Huh?
- Alguma coisa errada? – Perguntou Ike ao ver a distração do amigo.
- Não. – Respondeu Soren – Como eu disse, essa trilha…
- Espera! – Gritou Rhys se aproximando – Ike, vi algo se mexendo do outro lado daqueles arbustos!
- Um soldado ferido, talvez? – Perguntou Ike – Vamos dar uma olhada, tomem cuidado.
O grupo seguiu ao local indicado e Rhys foi o primeiro a encontrar.
- Oh não… – Exclamou Rhys preocupado.
- Você encontrou algo, Rhys? – Perguntou Ike que estava um pouco distante.
- É uma mulher… – Anunciou Rhys.
- Deixe-a. – Aconselhou Soren categórico – Nós não deveríamos nos envolver em assuntos que não são dos nossos interesses.
Rhys não o ouviu, correu em direção à moça e a colocou nos braços.
- Ainda bem, parece que ela está apenas desmaiada. – Comentou o jovem aliviado.
- Certo. – Disse Ike se aproximando de Rhys e ignorando Soren – É melhor levá-la conosco por enquanto e ter certeza que ela está bem. Me ajude a colocá-la nos ombros, Rhys?
- Claro. – Respondeu o rapaz satisfeito.
- Eu não gosto disso… – Disse Soren num comentário final.
2. Gruta do Espelho Guardião
Greil seguiu em direção ao sul por cerca de duas horas até chegar à Gruta do Espelho Guardião. A pequena gruta, no meio da floresta, recebeu este nome devido a uma lenda local que dizia que ao olhar as águas que havia no fundo da gruta era possível ver o reflexo do seu espírito guardião. Greil sabia que esta não era a verdade sobre a gruta mística, mas não sabia qual era o segredo atrás dela. Quando era jovem esta dúvida o incomodava, mas ao homem maduro que se tornara, só importava o que a gruta poderia lhe proporcionar. Ele adentrou à gruta e, em pé, olhou para as águas e disse:
- Sei que está por aqui, preciso falar com você, Rainha das Trevas!
- Sabe que não gosto que me chame assim! – Respondeu uma jovem que emergia das águas, com a pele branca como a lua, os cabelos negros como a escuridão da noite com brilhos de estrelas, olhos azuis profundos e um vestido branco reluzente – Você sabe que não sou tudo isso, mestre Gawain.
- Abandonei este nome há muito tempo. – Disse Greil.
- Então estamos quites! – Exclamou a garota sorrindo – O que quer de mim?
- Provavelmente já sabe da invasão de Daien a Crimea. – Disse sério – Onde isso vai levar? O que vai acontecer de agora em diante?
- Não sou um oráculo dos deuses, Greil. Não posso prever o futuro, apenas dar palpites baseados na minha experiência em conviver com os mortais. – Respondeu a jovem apoiando-se com as costas na parede da gruta.
- Onde você acha que Ashnard quer chegar?
- Ele é ambicioso, até demais, eu diria. Com certeza Crimea não será o suficiente para ele. Acredito que Ashnard vai continuar atacando até que seja parado.
- E ele virá atrás do medalhão?
- E você ainda tinha dúvidas disso? Claro que sim! Ashnard acredita que se libertar a deusa receberá uma grande recompensa. Seja em posse do medalhão, seja pela guerra constante. Mas ambos só levarão a dor e destruição. Aquele mortal não tem idéia da dimensão dos poderes que está tentando libertar.
- O que você sugere que eu faça? Como posso proteger o medalhão?
- Da mesma forma que antes, meu amigo. Fuja e se refugie em Gallia. Rei Caineghis é uma bela criatura e com um ótimo exército. Próximo a ele o medalhão ficará longe do caos da guerra.
- Não posso fugir novamente! – Disse Greil alterado – Ashnard precisa ser parado e a companhia não vai aceitar fugir numa situação dessas. Como vou justificar a Ike essa covardia?
- Bom, nisso você tem razão, Ashnard precisa ser parado o quanto antes, para o bem de Tellius. Sua decisão de lutar ao lado de seus mercenários é apreciada, mas ainda acho que deve deixar as crianças longe desta guerra. Mist e o pequeno Rolf são puros, se estiverem protegidos talvez consigam conter o poder do medalhão. Todo esforço para se restabelecer a paz é válido e deve receber confiança.
Um momento de silêncio se espalhou pela gruta. Lá fora, o sol alto da metade da tarde esbanjava luz e a trazia para dentro da gruta. Depois de pensar um tempo, Greil voltou-se novamente à jovem.
- Farei tudo o que estiver ao meu alcance, tudo o que puder, mas quero que me faça uma promessa. Se eu cair na batalha, proteja meus filhos.
A jovem ficou surpresa com a colocação de Greil. Olhou nos olhos dele e disse:
- Sabe que não posso interferir diretamente em seu mundo, mas aceito este desafio. Se você morrer, não permitirei que alguém tire a vida de seus filhos. Providenciarei para que eles trilhem seus caminhos, cresçam saudáveis e somente deixem este mundo quando a vida se esvair deles.
- É o suficiente para mim. – Respondeu Greil pegando seu machado no chão e saindo da gruta.
A jovem permaneceu no interior da gruta, observando o guerreiro partir.
“Você vai se meter em confusão novamente se for se divertir com os mortais” – Disse uma voz conhecida ao fundo da gruta.
- Gosto deles! – Respondeu a garota retornando para o lago – São intrigantes. Estou ansiosa para ver onde o destino nos levará.
1. Guerra entre nações vizinhas
Continente de Tellius, território de Crimea, lar do grupo denominado Greil Mercenaries. O bando estava reunido em casa descansando após a conclusão de duas missões, quando Soren, um jovem mago amigo do bando, chega ofegante, para surpresa do grupo.
- IKE! IKE! – Chama uma garotinha de pouco mais de dez anos de idade – Preciso te contar uma coisa! Escuta isso!
- Calma, Mist! – Responde o irmão mais velho – É muito cedo para estar gritando deste jeito. O que está acontecendo?
- Soren está de volta! Acabou de chegar!
- Mesmo? – Perguntou surpreso – Que estranho. Ele não deveria voltar tão cedo.
- Eu sei. – Comentou a irmã curiosa – Fico imaginando o que ele está fazendo voltando tão cedo…
- Provavelmente não é nada que a gente precise se preocupar. – Continuou Ike – Eu vou falar com ele. Onde ele está?
- No salão principal. – Respondeu a irmã – Acho que ele queria falar com o Papai.
- Certo! Vou lá então. – Afirmou Ike saindo do quarto.
O salão principal era talvez o maior cômodo do forte onde residiam os mercenários de Greil. Uma grande sala com janelas em ambos os lados e mesas longas para comportar uma equipe numerosa, se o trabalho assim necessitasse. Quando Ike chegou seu pai, Greil, conversava com Titania, a subcomandante, enquanto Soren descansava sentado em uma das mesas.
- Certamente são notícias perturbadoras. – Afirmava Greil com magnitude e autoridade indescritíveis – Reúna as tropas.
- Sim, comandante. – Respondeu Titania saindo com pressa.
- Ike, se você tem tempo para desperdiçar, tem tempo para trabalhar. – Disse Greil ao perceber a chegada do filho mais velho – Vá para a sala de reuniões.
- Sim, senhor. – Respondeu Ike como um bom soldado enquanto seu pai partia. Depois pensou alto – O que está acontecendo aqui?
- Péssimas notícias. – Respondeu Soren se levantando – Uma coisa grande está acontecendo, e nós precisamos formular um plano de ação.
- Soren! – Disse Ike notando a presença do amigo.
- Olá Ike. Muito tempo que não nos vemos.
- Estou feliz em saber que você está de volta. Mas o que aconteceu? Pensei que você ficaria estudando por muito mais tempo.
- É uma longa história… – Respondeu Soren, mas antes que pudesse começar a falar uma voz chamou da sala ao lado.
- Por que a demora? – Gritava Greil – Todos aqui, agora!!!
- Vamos! – Disse Soren – Eu te conto tudo depois.
A sala de reuniões era bem menor que o salão principal. Havia uma grande mesa ao centro, com capacidade de, no máximo, oito pessoas. Muitos mapas e livros em uma biblioteca na parede sul e lanças e machados pendurados na parede norte. Ao entrarem, Soren e Ike encontraram todos os mercenários principais ali reunidos.
- Vocês provavelmente lembra que Soren estava treinando com outro grupo de mercenários. Bem, ele está de volta. – Iniciou Greil a reunião – E ele tem notícias inacreditáveis.
- Que notícias são essas? – Perguntou Ike preocupado.
- Sobre Crimea e Daien. – Respondeu Soren – As nações entraram em guerra.
- Guerra?! – Questionou Mist assustada – Não… não pode ser!
- É por isso que chamei todos aqui. – Continuou Greil – Soren tem algumas informações sobre isso. Continue, Soren.
- Tudo bem. – Prosseguiu Soren abrindo um mapa sobre a mesa – Dêem uma olhada no mapa.
- Um mapa de Crimea. – Comentou Greil – Bem detalhado, pelo visual dele.

- Sim. – Continuou Soren – Esta é Melior, a capital de Crimea. Nossa base de operações é… basicamente por aqui. Tudo começou três dias atrás. Eu precisava fazer algumas pesquisas então fui aos arquivos da biblioteca real de Melior. Sem aviso, o grito de uma terrível criatura – um dragão, talvez – dominou o ar e o prédio rachou após um tremor. Eu corri para fora e vi ondas e ondas de soldados, cavaleiros e montarias de dragões, todos vestidos em brilhantes armaduras negras, escuras como a noite.
- O exército de Daien? – Questionou Greil.
- Correto. – Respondeu Soren.
- Era uma provocação? – Perguntou Greil.
- Como vocês sabem, as relações entre Crimea e Daien nunca foram muito… amistosas. – Continuou Soren – Entretanto, nos últimos séculos foram apenas pequenos desentendimentos, nunca houve nada que justificasse a aproximação de um ataque desta escala. Foi um ataque brutal e sem aviso. Daien reduziu a capital a nada. Eu nunca vi destruição nesta proporção antes.
- Um ataque rápido, devastador e brutal… – Comentou Titania – Uma estratégia ousada.
- Mas se for um sucesso, foi uma escolha muito boa. – Completou Greil – Sim, o rei de Daien não hesitaria em aplicar táticas traiçoeiras. O que aconteceu depois?
- O irmão do rei de Crimea convocou o exército para combate. – Continuou Soren – O rei ordenou à população que abandonasse a cidade antes que o combate chegasse até eles. Temendo o pior, eu também fugi e vim direto para cá.
- Então não sabemos qual foi o resultado da batalha, certo? – Perguntou Greil – Mas tudo bem. As notícias da guerra não devem ter viajado tão longe ainda. Nós devemos ser os primeiros a saber o que está acontecendo por lá. Você fez bem em trazer esta informação para nós, Soren. Reconheço que havia riscos nisso.
- Não foi nada. – Respondeu Soren sério, mas intimamente satisfeito pelo reconhecimento.
- Daien invadiu Crimea… – Disse Titania interrompendo – Nós podemos ser mercenários, mas isso ainda nos afeta.
- O que vamos fazer? – Perguntou Ike preocupado.
- Esta é a pergunta do dia. – Respondeu Greil – Como você vê a situação, Titania?
- Crimea é o mais se aproxima de uma terra natal para nosso grupo. – Respondeu a valente amazona. – A família real e os nobres têm sido bem generosos nos enviando muitos trabalhos lucrativos. De um ponto de vista moral e comercial, é do nosso melhor interesse auxiliar Crimea.
- E você, Soren? – Perguntou Greil.
- Eu concordo em um ponto: nós somos mercenários. – Respondeu o jovem. – Mas não somos a milícia particular de Crimea. Nenhuma moeda chegou em nossas mãos, então acho que devemos ficar fora disso.
- Então você acha que devemos sentar e assistir Crimea ser dominada?
- Acho. As tropas de Daien são superiores, tanto em número quanto em artilharia. As chances de uma vitória de Crimea são muito pequenas.
- Mas Crimea é governada pelo Rei Ramon, que é conhecido por toda terra pelo seu conhecimento. – Retrucou Titania – E o irmão dele, Duque Renning, é sabido que ele possui muito valor e coragem. Daien não encontrará vitória tão facilmente.
- Valor e coragem são para contos infantis. – Insistiu Soren – Em termos de prestígio militar, o rei de Daien, Ashnard, se equipara a Lord Renning. A vitória dependerá do número de tropas e suprimentos, e Daien é superior em ambos. Acredito que o resultado é dolorosamente óbvio.
- Maldição, Soren! – Interviu Titania nervosa – Crimea não está condenada! Se eles puderem restabelecer a confiança inicial de Daien e transformar isso num teste de resistência…
- Com o exército de Crimea desmoralizado e mal preparado? – Retrucou Soren – Eles simplesmente não conseguiram segurar por muito tempo.
- Muito bem! – Disse Greil separando os dois – Agora chega. Vocês dois. Escutei o que disseram. Entretanto precisamos ter certeza da situação atual antes de decidirmos por alguma atitude. Vamos mandar um pequeno grupo para verificar melhor a situação em Melior. Ike, você está responsável por isso. Escolha seus homens e parta.
- O que? – Perguntou Ike surpreso. – Eu?
- Titania vai acompanhar você como conselheira.
- Comandante, você só pode estar brincando. – Interrompeu Shinon, o habilidoso arqueiro – Ele é apenas um garoto, mal sentiu o gosto da batalha. O que você espera de um moleque como ele?
- Ah, Shinon. Já que você está tão preocupado, você pode ir também. – Ordenou Greil.
- Espera, não foi isso que eu…. Ah, droga!
- Quem mais… – Chamou Greil – Gatrie, Rhys e Soren. Isso será o suficiente.
- Pai, espera… – Ike tentou chamar a atenção enquanto seu pai saía – Por que você quer que eu…
- Isso foi uma ordem! – Continuou Greil – Ande logo. Não há tempo a perder.
- Sim, senhor. – Respondeu Ike.
- Titania. Vou sair um pouco. Quero que dê instruções a Ike.
- Entendido.
Greil partiu. Titania começou a conversar com Ike enquanto os outros buscaram o equipamento necessário para partir. Antes de seguirem viagem, Mist entregou a Ike uma espada que seu pai enviara. Greil não era o tipo de homem que expressava suas emoções, portanto sempre usada um dos filhos para beneficiar o outro.
Prólogo
“No continente Tellius, uma terra abençoada pela Deusa, existem duas raças de criaturas inteligentes: os Beorc, cuja aparência é próxima dos humanos e dos Laguz, cuja aparência é uma mistura entre humanos e animais. Estas raças coexistem e, depois de muitos combates e disputas, são agora divididos em sete nações: Begnion, Crimea e Daien, três territórios essencialmente de beorc; Gallia, o reino dos laguz ferais; Phoenicis, o reino dos falcões; Kilvas, o reino dos lcorvos e Goldoa, o reino dos dragões.
Até cerca de vinte anos atrás havia um oitavo reino, a Serenes Forest, habitada pelos herons, os mais puros dos laguz. Mas a floresta foi devastada pelos beorc de Begnion e atualmente há poucos herons existentes em Tellius. Desde então, este continente geralmente pacífico tem mudado lentamente e uma grande perturbação está prestes a mudar sua história. Diante de tais circunstâncias, é imprescindível que acompanhemos os acontecimentos relevantes deste continente, assim poderemos impedir que um grande mal se liberte e devaste não apenas Tellius, mas todos os mundos a ele ligados.”
Foi com este discurso que Melissa, uma das senhoras de Sphere, o reino oculto das criaturas autodenominadas Eternos, convenceu suas irmãs da necessidade de partir para Tellius e se relacionar com os habitantes daquele continente.