6. A banda
Aos primeiros raios de sol, Melissa se preparou para ir ao local de encontro com Josh e Sam, um casarão abandonado, no alto da colina aonde ninguém ia por achar ser amaldiçoado. Ao chegar ao local, Melissa viu que na verdade havia uma família lá que estava morta há alguns anos e temiam se separar no outro mundo. Ela conversou com eles e enviou um chamado para a Soul Society pedindo um shinigami para encaminhá-los. Ela mal tinha acabado de mandar a mensagem quando os rapazes chegaram.
[Josh] Bom dia, Mel. Madrugou garota?
[Mel] Um pouquinho! Na verdade estava ansiosa! Preparei um lanchinho para nós!
Sam nada disse. Só olhava para a garota sorridente e imaginava o que ela teria feito em Tellius enquanto eles dormiam. A manhã passou rapidamente. Melissa tinha cerca de quarenta músicas que compusera com o irmão, o que deixou os rapazes bastante surpresos. Josh tinha nove músicas e Sam nenhuma, nunca pensara em compor antes. No fim, foi fácil escolher seis músicas, ficaram quatro de Melissa e duas de Josh. A etapa seguinte seria organizar os ensaios. Os três passaram a tarde montando um cronograma que não atrapalhasse as atividades de arquearia e kendô de Melissa, esgrima e xadrez de Samuel e baseball de Joshua.
O sol já começava a se pôr quando os três seguiram de volta à área habitada da escola. Josh rapidamente arrumou uma desculpa para deixar Sam e Mel sozinhos. Sam aproveitou para tentar matar sua curiosidade.
- Então, como foi sua viagem ao outro mundo?
- Humm… eu diria que instrutiva.
- Instrutiva? O que há de instrutivo numa guerra?
- Bom, não na guerra necessariamente. O grupo que vou acompanhar de agora em diante vai fazer uma longa viagem. Vamos escoltar a princesa do país derrotado para encontrar-se com a imperatriz da principal teocracia e pedir auxílio militar. Tellius tem uma tecnologia que chega a ser inferior à do seu mundo, portanto a viagem vai levar uns quinze dias até o porto e, de lá, uns três meses até a teocracia. Não faço idéia do que o inimigo vai aprontar nesse meio tempo, mas a viagem tende a ser tranqüila. As negociações depois disso que serão mais difíceis.
- Entendo… então você não corre perigo lá…
- Preocupado?
- Não!!! – Disse Sam sem graça – É que… bem… é… seria estranho se você desaparecesse do nada ou aparecesse machucada…
- Hahahaha!!! Mazokus são todos iguais!
- O que quer dizer com isso?
- Sempre achando que as mulheres são frágeis além da conta.
- Não achamos isso!!! De onde você tirou esse preconceito?
- De lugar nenhum! – Mel respondeu ainda rindo – Mas quando Cecilie for substituída por um novo Maou, você vai lembrar disso.
Os dois se separaram e seguiram caminhos diferentes em direção os dormitórios. Sam ficou um pouco irritado com a colocação da colega. Ele nunca se considerou machista, não era machista, só estava preocupado com Mel, e nem sabia o motivo de ter ficado preocupado.
A semana correu depressa. De alguma forma, Sam, Mel e Josh conseguiam desculpas para escaparem dos colegas e ensaiarem sem serem vistos ou ouvidos. Para manter as aparências, Sam e Josh não se aproximavam de Melissa na frente das pessoas, nem a acompanhavam ao dormitório. Ray chegou a comentar com Colin e Mel que talvez ele tivesse perdido o interesse m mulheres de vez. Ela havia percebido que, desde o sábado, o rapaz estava muito mais próximo de Josh do que antes. Ela, e possivelmente a escola inteira. De uma hora pra outra as hostilidades femininas para cima de Mel desapareceram. As numerosas fãs de Sam agora se dividiam entre expressões derrotadas ou ainda mais maravilhadas. Mel preferiu não dizer nada aos dois, seria muito constrangedor fazer um comentário do tipo. Além do mais, entre os mazokus união entre homens sempre foi muito mais comum do que na terra, fazia parte do orgulho e superioridade mazoku, era cultural.
Enfim, chegou a sexta-feira, dia de reunião do Clube de Música. A hostilidade ainda pairava no ar, mas era constantemente quebrada pelo prof. Elphin. Aliás, ele era muito mais aluno do que professor naquele meio, sentia-se muito à vontade com o grupo. Melissa manteve-se agarrada ao violino e só mostrava interesse nele, mesmo que o prof. Elphin, dissesse a ela várias vezes que a voz dela era um instrumento muito mais agradável. Ao terminarem as atividades do clube, todos saíram da sala com exceção de Sam, Josh e Mel. Josh precisava passar um recado que não poderia esperar o próximo ensaio. Os três fingiram estar arrumando as coisas, mas antes que pudessem ficar sozinhos, Colin entrou na sala furioso, fechou a porta com força e a trancou por dentro.
[Colin] O que vocês pensam que estão fazendo? Isso foi um absurdo! Samuel, mesmo que seja presidente deste clube, não pode passar por cima do Conselho Estudantil! E Mel, como pode fazer isso pelas minhas costas? Somos amigos não somos? Como pode entrar na conversa desses… desses… grrr!!!
Os três se entreolharam confusos.
[Mel] Do que você está falando? – Disse com doçura – Você está bem?
[Sam] Quem se importa? Esse cara é maluco, sempre aparece dando algum chilique desses!
[Colin] Eu sou maluco? Você se acha muito superior, não é? Acha que…
[Josh] Hey!!!! Calma aí vocês dois! – Chamou a atenção enquanto entrava no meio dos dois – Discutir não vai levar a lugar algum! Presidente do conselho, por que está bravo assim? Fizemos algo de errado?
[Colin] Se fizeram algo de errado? Claro que fizeram! Levei a maior bronca do diretor porque o Conselho Estudantil não havia informado à escola que nós havíamos inscrito uma banda para fazer a apresentação dos jogos intercolegiais. Imaginem a minha cara!!! Qualquer atividade artística produzida em nome da escola TEM que passar pelo Conselho Estudantil! O querido presidente de vocês sabe muito bem disso!
[Sam] O QUE???? Josh, você nunca disse que isso ia levar o nome da escola, pensei que fosse só a loja do seu tio.
[Josh] Eu também… isso é novidade para mim…
[Mel] Ai… ai… essa coisa está ficando confusa… Colin, isso é uma longa história. Senta e relaxa.
Mel narrou para Colin como os três se meteram na enrascada e tudo o que acontecera até o momento.
[Colin] Peraí! Então, vocês viraram uma banda, sem ser uma banda?
[Josh] Isso mesmo. E nem era para a escola estar envolvida. Do jeito que são as coisas por aqui, podemos ser expulsos do clube se descobrirem que vamos fazer algo tão… popular…
[Colin] Bem, o diretor não está preocupado com isso. Achou boa a idéia, gostou de nos reunirmos com grupos de outras escolas e tal, só não gostou de não ter sido informado sobre isso.
[Josh] Uma preocupação a menos…
[Sam] Mas como o diretor soube? Isso não é pequeno demais para ele?
[Colin] Ah… sim… Eles precisam dos documentos dos integrantes da AVRIL, apenas por burocracia, tinha o nome de vocês lá mas nem isso está completo.
[Mel] Avril? O que é Avril?
[Sam] Deixa eu ver esse papel! – Disse puxando a carta da mão de Colin – Bem… aparentemente AVRIL é o nome da nossa banda… Josh cara… seu tio me paga…
[Josh] Pode tentar, eu só tenho medo dele…
[Sam] Bom, senhor presidente do conselho, te entregamos tudo o que precisa amanhã de manhã então… pode cair fora…
[Mel] Heyyy!!! Isso foi bem grosseiro, Sam! Foi mal, Colin, ele…
[Colin] … queria dizer isso mesmo. Relaxa Mel, estou acostumado com esse cara… Bom, resolvam isso e tomem cuidado na próxima.
[Josh] Espera! – Gritou para a surpresa de todos – Você é o cara que cuida do som no Clube de Audiovisual, não é? Já te vi no teclado, você faz coisas bem legais!
[Colin] … ahhh… obrigado…
[Josh] Não quer participar também, cara?
[Sam e Mel] Que???
[Josh] Sério gente… ele já sabe nosso segredo e eu vi os arranjos que pode fazer naquele teclado sintetizador maluco dele… vai dar uma batida eletrônica no som e ainda deixar a Mel mais livre pra só cantar e ocupar o palco… é um bom plano!
[Sam] Não gosto disso!
[Josh] Podemos testar ao menos? Olha… meu tio disse que amanhã poderá nos mostrar a estrutura do local onde vai ser a abertura dos jogos. É uma escola, mas com bastante recursos. Por que não vamos todos e decidimos isso lá, na prática? Mel pode levar as partituras dela e ele toca… pode ser que dê certo.
[Mel] Bom, não custa nada tentar, não somos uma banda de verdade mesmo, qualquer ajuda é bem vinda… vamos para Namimori amanhã?
[Josh] Na verdade vamos lá perto. A escola que vai fornecer todo equipamento é próximo de Namimori, mas é uma escola de elite, afastada como a nossa.
[Mel] Hummm legal!!! Tem um restaurante típico japonês que adoro naquela cidade. Será divertido levar vocês lá!
Depois de planejar o fim de semana, os quatro deixaram a sala de música. Mel e Josh estavam animados, mas perceberam que Colin e Sam não estavam nada felizes. Mel pensou em perguntar alguma coisa, mas aparentemente os dois tinham suas próprias rixas.
2. Violino sob o luar
O sol já se punha quando a reunião terminou. Melissa seguiu com seu violino para um dos penhascos fora do castelo de Gallia e tocou uma música que aparentava ser serena e sombria, assim como fizera todos os outros dias que seguiram à morte de Greil. Do interior do castelo, escutava-se a melodia.
[Ike] O que é isso?
[Elincia] Desde a notícia da morte de lorde Greil, rainha Melissa sai todo anoitecer e produz uma bela música em homenagem a ele.
[Ike] Que forma diferente de demonstrar luto.
[Soren] Suponho que seja uma prática herdada dos herons. Pelo que li, a família real dos Eternos possui origem na família real dos Herons. Antigamente, na cultura heron, quando um dos membros queridos falecia havia cantos solenes por sete dias.
[Ike] Está dizendo que aquela garota também é laguz?
[Ranulf] Em sua origem, sim. Os Eternos são criaturas misteriosas, pouco se sabe sobre eles. Uma das teorias é de que tiveram origem na mistura entre herons e beorcs, mas não existe comprovação disso. A afinidade musical entre herons e eternos e até alguns traços físicos são semelhantes, mas não se pode deixar enganar pela aparência delicada de um eterno. Ao contrário dos extintos herons, os eternos são extremamente fortes e poderosos.
Ike permaneceu em silêncio pensando nos contatos que seu pai possuía e ele não sabia e no que seu passado escondia.
Quando a composição terminou, Melissa escutou palmas vindas de trás dela. Ao se virar, deparou-se com dois rapazes de cabelos verdes, um de idade adulta e outro de aproximadamente doze anos.
[Oscar] Esse foi um som maravilhoso.
[Melissa] Ah… obrigada!
[Oscar] Eu sou Oscar, dos Greil Mercenaries. E este é meu irmãozinho, Rolf. Nós gostaríamos de agradecer pela ajuda alguns dias atrás.
[Melissa] Oh… não foi nada… eu… gostaria de ter ajudado mais…
Rolf e Oscar se entreolharam. Como se entendesse o irmão no olhar, Rolf inventou uma desculpa e voltou para o castelo.
[Oscar] Ike nos contou que você e o comandante se conheciam.
[Melissa] Sim, muito antes dos dois nascerem. Mestre Gaw… mestre Greil era um grande homem, me ensinou muito do que sei hoje… Como vocês estão indo?
[Oscar] Bem, alguns abandonaram o grupo, mas foram poucos. Acredito que conseguiremos dar conta dos trabalhos, mesmo na ausência dele.
[Melissa] E as crianças?
[Oscar] Bem, Ike é muito forte e tem se mostrado bastante maduro. Ele levou a sério o desejo do pai em seguir em frente, acredito que se tornará um grande homem. Mist ainda está abalada, ela é mais frágil, mas também está superando.
[Melissa] Que bom! São boas crianças, merecem ser felizes.
[Oscar] Sei que isso pode parecer presunçoso, e não precisa responder se não quiser… mas… por que uma pessoa tão nobre quanto vossa majestade deseja nos acompanhar a Begnion?
[Melissa] Bom, seremos companheiros em breve, então não precisa de rodeios para falar comigo. Não é que eu deseje acompanhar a Begnion, desejo ficar próxima dos filhos de Greil. Eu tinha um carinho muito grande por mestre Greil e a mulher dele, de certa forma posso dizer que esse carinho se transferiu para os garotos. Quando Elena morreu, Greil me fez prometer que não interferiria, que ficaria longe das crianças, pela própria proteção delas. Mas quando essa guerra começou, ele me pediu para que, na falta dele, cuidasse para que os dois ficassem seguros e felizes.
[Oscar] Eles não são tão frágeis quanto você imagina.
[Melissa] Eu sei e não me admirei quando Ike disse que quer crescer forte para vingar o pai, muito menos quando aceitou o trabalho de proteger a princesa. Ike é honrado e forte como o pai e tem o coração puro da mãe. Não pretendo ser guardiã de nenhum deles, por isso a idéia de me unir aos mercenários pareceu boa. Ao me tornar uma aliada, posso garantir que não se machuquem sem interferir na liberdade deles e quando a paz voltar a Tellius, vou deixá-los construir novamente uma vida feliz.
[Oscar] É muito nobre de sua parte.
[Melissa] Na verdade é egoísta de minha parte. Estou colocando minha vontade acima do que seria correto fazer, mas não me importo. Ficarei feliz se eles forem felizes.
Melissa e Oscar passaram a noite conversando ao luar. A pedido da garota, que queria conhecer mais sobre seus novos colegas, Oscar contou diversas histórias envolvendo todos os membros dos mercenários, algumas situações divertidas, outras de coragem etc. Melissa também partilhou muitas de suas experiências e deixou Oscar bem mais a vontade, que passou a vê-la mais como guerreira do que uma nobre rainha. Os dias se passaram e, um dia antes da partida para Crimea, de onde pegariam o barco para Begnion, Melissa retornou à Terra.
1. Gallia
A viagem de Ike e os mercenários até o castelo de Gallia não fora tranqüila. Logo após Ike assumir o grupo eles foram atacados por Daien, novamente salvos pelos laguz e ainda tiveram de enfrentar mais soldados de Daien a caminho. Passaram-se três dias entre a morte de Greil e a chegada dos mercenários ao castelo.
- Lord Ike! Amigos! – Princesa Elincia foi a primeira a saudá-los em sua chegada.
- Princesa Elincia! – Respondeu Ike.
- Eu soube o que aconteceu… ao Comandante Greil. Eu… não sei o que dizer.
- Não se preocupe. Nós estamos bem. Estamos dando conta… de alguma forma.
- Oh Ike…
- O rei acaba de chegar. – Anunciou um servo do castelo.
À sala onde os mercenários e a princesa estavam entraram um grande leão, um laguz tigre e a rainha de trajes negros.
[Ike] Humm… Olá…
[Caineghis] Obrigado por virem ao Palácio de Gallia. Eu sou Caineghis, governante do reino de Gallia.
[Ike] Estes são os Greil Mercenaries. Eu sou Ike, o comandante.
[Caineghis] Você cresceu bastante, filhote, eu não o reconheci.
[Ike] Como?
[Titania] Na última vez que você esteve aqui ainda era uma criança muito pequena.
[Caineghis] É você, Titania? Que bom vê-la novamente.
[Titania] O prazer é meu, majestade.
[Ike] Vocês dois são amigos? Como… como o rei me conhece?
[Melissa] Acho que vocês estão embolando a cabeça do menino.
[Caineghis] Realmente é melhor irmos direto ao assunto. Eu tenho algo para contar sobre o seu pai, Greil… Lethe, Mordecai! Prepare quartos para nossos convidados descansarem e cuidarem de suas feridas, farei uma reunião com a liderança do grupo agora.
Os dois laguz concordaram e apontaram o caminho para os mercenários. O grupo saiu vagarosamente, para esperar uma palavra de Ike.
[Elincia] Seria aconselhável que eu também partisse?
[Caineghis] Não, princesa. Eu desejo que você fique. E estes dois também permanecerão. Este é Giffca, minha sombra. Não precisam dar atenção à presença dele. E acredito que vocês já conheçam Melissa, senhora da nação secreta de Sphere. Uma leal aliada de Gallia e de seu pai.
[Ike] Entendido. Também desejo que Titania e Soren permaneçam também.
[Soren] Eu?
[Caineghis] Muito bem. Agora, por onde começar? Titania? Quanto Greil contou para seu filho?
[Titania] Ike foi criado sem nenhum conhecimento de Gallia e nem se lembra de ter estado aqui.
[Caineghis] É mesmo? Então o melhor que temos a fazer é contarmos a ele o que sabemos. Ainda que eu não saiba de muita coisa.
[Ike] Está tudo bem. Tudo que puder me contar será apreciado. Eu quero saber mais sobre meu pai.
[Caineghis] Hmmm… Você tem bons olhos. Honesto e bravo. Vejo seu pai neles. Muito tepo atrás, Greil… seu pai… trabalhou como mercenário para Gallia. Melissa o trouxe até nós e eu e ele criamos um forte laço de amizade. Para falar a verdade, eu ainda não confio em beorc. Mas seu pai era diferente. O pai da princesa Elincia, Rei Ramon, e o irmão dele, Lord Renning, também eram muito diferentes. Todos eles são… ou eram… homens excepcionais. Homens extremamente confiáveis. Oh… Titania! Você também é uma exceção! Entre as mulheres beorc, você é única.
[Titania] Muito agradecida, majestade.
[Ike] Meu pai foi um mercenário em Gallia…?
[Caineghis] Correto. E você e sua irmã? Ambos nasceram aqui em Gallia. Vocês ficaram por um curto tempo, mas parte da infância de vocês se passou dentro destas fronteiras.
[Ike] Mist e eu nascemos aqui? É isso mesmo? Eu não me lembro de nada disso.
[Caineghis] Sinto que os pais de vocês carregavam um grande segredo. Alguém estava caçando-os, tenho certeza disso. Certa vez, cerca de dez anos atrás, após sua mãe ser assassinada, seu pai decidiu deixar Gallia. Antes dele partir, eu fui até ele e pedi que partilhasse de sua história. Eu perguntei a ele: “Por que você está sendo perseguido? Existe algo que eu possa fazer para ajudar?”. Mas fui incapaz de fazê-lo dizer alguma coisa. E quando soube que ele havia retornado a Gallia, pensei que talvez tivesse outra chance de conversar com ele sobre isso. Seu destino era sombrio. Se eu tivesse sido mais rápido, se tivesse apressado meus passos, talvez tudo fosse diferente.
[Ike] Espere! Agora eu entendo. A voz que escutei… Era você, não era?
[Caineghis] A ferida dele era fatal. Eu não podia fazer nada. Pensei que seria melhor se não interferisse em seus momentos finais, então permaneci escondido. Diga-me, Ike… No final, ele confessou algo a você? A identidade do Black Knight, ele revelou?
[Ike] Black Knight? Não, não sei quem ele é. Meu pai me confiou o comando dos mercenários, disse-me para confiar no Rei Caineghis e viver pacificamente em Gallia. Me mandou esquecer todo o resto.
[Caineghis] Só isso? Bem, farei o que for possível. Se seus mercenários desejarem viver aqui, arranjarei uma forma de isso acontecer. Fornecerei a todos casas e terras.
[Ike] Aprecio sua bondade, mas falando por mim, eu não conseguiria viver aqui em paz. Ao menos não agora. Eu vou vingar meu pai. Não posso esquecer o que aconteceu assim tão rápido… nem o Black Knight.
[Titania] Mas, Ike! Isso não…
[Ike] Eu sei. Eu não sou… não sou forte o suficiente. Um oponente que pôde derrotar meu pai está muito além do meu alcance… E por isso mesmo vou me esforçar para crecer e ficar cada vez mais forte. Vou liderar os mercenários de meu pai e me preparar para o dia que eu tiver minha chance de vingança.
[Caineghis] Uma atitude bastante prudente. Você parece um rapaz impulsivo, mas é filho de Greil realmente.
[Titania] Há! Você amadureceu ,Ike. Parece que foi ontem que você era apenas uma criança.
[Caineghis] E agora, eu gostaria de pedir um favor a você. Ike, você emprestaria a força de su grupo de mercenários para a Princesa Elincia?
[Ike] Está falando sério?
[Caineghis] Gallia e Crimea são nações aliadas, isso não pode ser negado. Entretanto, essa aliança realmente mantém-se apenas nas famílias reais. Não é respeitada por nossos cidadãos.
[Titania] As pessoas de Gallia algumas vezes são vistas em Crimea, mas ainda que as nações sejam amigas, as pessoas de Crimea dificilmente compreendem os laguz. Muitos dos nossoa ainda usam o nome indigno “sub-human” quando falam dos laguz…
[Elincia] Meu pai se sentia numa mistura de vergonha e pesar quando ouvia acontecimentos deste tipo. Mais do que qualquer rei em nossa história, ele queria profundamente que nossos povos se relacionassem bem, e então…
{Caineghis] Talvez por isso Daien o usou como alvo. O ódio de Daien pelos laguz é bem conhecido.
[Ike] Seria possível…?
[Caineghis] Eu gostaria, de todo coração, de servir de guardião à Princesa Elincia e auxiliá-la a reconstruir Crimea. Entretanto, há um sentimento antibeorc crescente em Gallia. Se nós oferecermos refúgio à princesa, sinto que muitos dos anciões e estadistas irão protestar. Eles dirão que estamos dando a daien a desculpa perfeita para nos atacar.
[Ike] O que significa que Gallia não pode oferecer ajuda à Princesa Elincia… é isso?
[Caineghis] Infelizmente é verdade…
[Elincia] Rei Caineghis e Rainha Melissa me aconselharam a procurar a Teocradia de Begnion e pedir auxílio à restauração de Crimea. Eles disseram que nós deveríamos fazer um requerimento formal e ganhar o suporte dos escudos deles.
[Titania] Uma viagem a Begnion exige alguns meses ao mar. Uma escolta será necessária…
[Ike] Como você sabe, nós temos poucas pessoas para servir de um completo exército mercenário. Então, se a princesa desejar nos contratar como escolta, é uma oferta além das nossas expectativas. Titania! Soren! Acho que devemos aceitar a oferta do rei. O que vocês acham?
[Titania] É este o seu desejo, não é, comandante? Muito bem, nosso trabalho é seguir você.
[Soren] Qualquer caminho que desejar seguir, por mim está bom. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para nos guiar ao sucesso.
[Ike] Entendido. A partir de agora, os Greil Mercenaries assumem a honra de servir de escolta para a princesa de Crimea. Princesa Elincia, nossa jornada juntos será sem dúvida muito longa. Espero que possamos servi-la bem.
[Elincia] Oh, muito obrigada! Rezo para que, em retorno, eu possa fazer valeu seu serviço!
[Melissa] Muito, bem. Acredito que não vão se importar se eu os acompanhar nesta jornada.
[Elincia] Rainha Melissa…?
[Melissa] Algum tempo atrás eu prometi a Greil que, se algo acontecesse a ele, eu cuidaria para que suas crianças crescessem felizes e seguros. Já que, como eu esperava, vocês não vão ficar quietos em Gallia, acredito que não tenho outra escolha a não ser acompanhá-los pessoalmente.
[Titania] Perdão majestade, mas e quanto ao seu reino?
[Melissa] Haverá outros que podem cuidar dele temporariamente. Além do mais, não aceito não como resposta. Ou faço parte do grupo, ou os seguirei pelas sombras.
[Ike] Se é assim, será um prazer receber mais um membro ao grupo.
5. A loja de instrumentos
No dia seguinte, logo após o café da manhã, Melissa e Samuel se encontraram no ponto de ônibus que levava à cidade, conforme combinado. Os dois conversaram animados durante todo o caminho. Sam contara como fora difícil se adaptar às diferenças da Terra e diversos ‘foras’ que deu por se deparar com um mundo diferente. Melissa achou tudo muito engraçado, como crescera entre culturas diferentes não teve grandes dificuldades. Ao chegarem à cidade, Sam insistiu em parar em alguns lugares no caminho da loja de instrumentos musicais. Eles gastaram quase duas horas vendo CDs, DVDs e procurando por jogos de videogame. Depois disso foram almoçar em um restaurante local, onde Mel percebeu pela primeira vez a diferença clara entre Sam e Günter. Na escola, Sam sempre era sério, compenetrado, atencioso a tudo que acontecia ao redor, assim como Günter sempre se apresentou; mas agora ele se mostrava muito mais descontraído e divertido, quase como se outro Sam estivesse aparecido. Melissa divagou um pouco pensando se ela também não seria um pouco assim, uma pessoa diferente a cada ambiente que freqüentava, mas logo foi trazida à realidade por Sam. Depois do almoço os dois passaram em frente a um fliperama onde Sam insistiu em mostrar as habilidades que adquirira ao desvendar as máquinas no ano anterior, somente depois disso foram à loja de instrumentos.
A vitrine da loja não era muito grande, mas ao entrar Melissa se deparou com um paraíso de instrumentos, acessórios e livros de música. Ambos seguiram pelas prateleiras cheias onde Sam mostrava diversos livros de composições. Poucos minutos se passaram desde que entraram e um som de piano começou a vir do fundo da loja.
- Noturno em Re bemol? – Perguntou Melissa.
- Sério? Percebo que é um Noturno, mas não consigo distinguir assim.
- Acho que é um dos noturnos de Chopin.
- Vamos lá ver?
Os dois seguiram ao fundo da loja e se depararam com um rapaz ao piano. Os dois se surpreenderam ao reconhecer o rapaz de cabelos claros e escuros do Clube de Música, entretanto nada disseram, apenas escutaram.
Ao fim da apresentação, Samuel e Melissa aplaudiram e o rapaz finalmente percebeu que não estava sozinho.
[Sam] Isso foi maravilhoso Josh, eu não sabia que tocava piano, achei que seu mundo era o violoncelo.
[Josh] É, mas de vê em quando gosto de variar. O que fazem por aqui? Não me digam que estão tendo um encontro?
[Sam] Não seja idiota!!!! – Exclamou encabulado – Essa é a melhor loja da região, trouxe a Melissa para conhecer.
[Josh] Então já que é assim… – Disse se aproximando de Melissa, pegando-lhe a mão e dando um beijo – Joshua Gerwinski a seu dispor, mademoiselle.
Mel corou e sorriu sem graça. Sam, com as orelhas um pouco avermelhadas, apenas olhou nervoso.
[Josh] Meu tio é o dono desta loja, será um prazer atendê-los.
Melissa contou que procurava por um violino novo e, como um bom vendedor Joshua apresentou muitos e ela teve até dificuldades em escolher. Somente na hora de efetuar o pagamento que o rapaz chamou o tio. Um homem corpulento veio do interior da loja, ele era muito forte, quase um militar. O homem passou pelos jovens e disse mirando Samuel.
- Como vai pagar?
- Cartão. – Respondeu Melissa intimidada com a opulência do homem.
O rapagão virou-se para a jovem e sua face brava se transformou em espantada.
- Erthian??? – Disse ele.
- Você conheceu minha mãe? – Perguntou Melissa surpresa.
- Uauuuu!!! Você deve ser a filha mais nova de Nate. Bem que ele me disse que você tinha ficado a cara da mãe. Não te vejo desde que era da altura do meu joelho.
- Perdão, mas… quem é o senhor?
- Claro que não iria se lembrar de mim, era muito pequena. Sou Peter Nyberg…
- … Segundo Esquadrão Tático do Canadá. – Disseram os dois juntos.
- Já ouvi muitas histórias do senhor. É um grande herói!
- Que isso menina, sem o Comandante não seríamos nada. Por onde anda seu velho pai?
- Em algum lugar do Texas… acho… ele resolveu treinar um grupinho de adolescentes agora, dão uma boa dor de cabeça…
- HumHumm – Josh chamou a atenção.
- Ah sim! Aqui essa menina não paga nada! – Disse o tio para a surpresa de todos – Mas vai ser obrigada a fazer uma apresentação para mim. Nate me disse que você e seu irmão tocam e cantam tão belamente que ele nem consegue presenciar porque parece uma dose dupla de Erthian. Eu adorava muito sua mãe, ela era uma mulher muito bondosa. Não vai me negar isso, não é?
- Claro que não! – Melissa respondeu sorridente – Será um prazer. Mas não sei se sou tudo aquilo que meu pai te disse.
O tio de Josh colocou uma placa de “Volto logo” na entrada da loja e acompanhou Melissa e os rapazes até os fundos da loja. A jovem pegou um violão e se sentou na banqueta.
- Bem, já que o senhor conheceu minha mãe, vou tocar uma música dela, tudo bem?
- Vai fundo, garota!!! – Disse o homenzarrão de forma bem estranha.
Os três estavam atentos. Talvez antes Josh e Sam não tivessem notado que a voz de Melissa era boa por causa do grupo e tudo mais, talvez não tivessem prestando atenção, não sabiam explicar, apenas era diferente agora. Peter não pareceu muito surpreso, mas pelo visto tinha gostado também.
- Bem, acho que isso vai ficar melhor ainda agora. – Disse o homem a si mesmo. Depois virou-se para os dois rapazes e disse. – Vocês ouviram a garota. Que tal agora colocar um pouco mais de instrumentos nessa música? Andem!!! Não fiquem parados!!! Músicos não podem perder tempo, hajam como um conjunto!!!
Josh, Sam e Mel ficaram meio perdidos com aquela ordem. Josh pegou uma guitarra e Sam sentou-se numa bateria ao fundo da loja. Peter pegou um contrabaixo e se juntou a eles.
Ao terminarem a música, dois homens que não estavam ali antes, aplaudiram.
- Muito bom, senhor Peter. – Disse um deles – Achávamos que íamos encontrar apenas uma pessoa para o hino, mas encontramos também a banda do show de abertura.
- Eles são bons, não são? – Disse Peter animado, seguindo com os dois homens para outro canto da loja – Vamos conversar lá dentro.
[Sam] O que está acontecendo?
[Josh] Acho que o tio está aprontando de novo. Estes caras vieram para me contratar para tocar o hino nacional na abertura dos jogos interescolares.
[Sam] E eles acham que somos uma banda??? Josh, você precisa dar um jeito nisso.
[Josh] Você está louco? Não posso discordar dele. Você viu o tamanho dele?
[Sam] Mel, ele pareceu gostar de você, fala com o homem, não somos uma banda.
[Mel] Eu??? Por que eu? Vamos todos juntos, vai ser mais fácil negar!
Mas não foi tão fácil assim. O senhor Nyberg não deixou os jovens pronunciar uma palavra, a autoridade militar dele se ressaltava tanto que nenhum dos três conseguiu falar nada até que os homens tivessem ido embora.
[Peter] Isso foi realmente ótimo!!! Agora a loja ganhará mais publicidade que nunca.
[Mel] Perdão, senhor Nyberg, mas não podemos fazer isso. Não somos uma banda. Acabei de chegar aqui e…
[Peter] Não será problema algum para vocês. A apresentação é daqui a três semanas, com certeza vocês tem bastante tempo livre em Hakagure, vão conseguir fazer umas cinco ou seis músicas, se saíram bem agora há pouco.
[Sam] Mas senhor…
[Peter] Sem “mas” rapaz!!! Essa apresentação é importante e vocês vão! Onde já se viu crianças tentarem questionar autoridade, francamente, a juventude de hoje está perdida. Daqui a três semanas vocês vão abrir os jogos interescolares em Namimori e ponto final. Vão me agradecer por isso depois.
[Mel] Namimori, senhor?
[Peter] Sim, não vá me dizer que tem algum problema com… ah, claro… como pude me esquecer… Namimori é onde mora o velho Yamamoto e o filho dele, não é? Nate me contou que você tinha uma quedinha pelo rapaz…
[Mel] NÃO!!! Não é isso… é só que…
[Peter] Estamos resolvidos então. Agora vocês tem muito o que fazer. Vamos, vamos, eu preciso trabalhar!
Senhor Nyberg expulsou os três da loja rapidamente. Os jovens seguiram para uma lanchonete próxima e começaram a devorar milkshakes confusos.
[Josh] Desculpe gente, sem querer meti vocês numa enrascada.
[Mel] Eu devia saber que amigos do meu pai só são muito gentis quando querem algo… Me deixei levar também…
[Sam] Bom, agora não temos muita escolha, não é? Como vamos fazer isso? Se o restante do Clube souber vão nos chutar para fora.
[Josh] Cara! Você é o presidente do Clube, não pode deixar eles dominarem você assim.
[Mel] Dane-se o Clube!!! Se aqueles almofadinhas acharem ruim vou fazê-los engolir os instrumentos!!!
Os dois rapazes olharam para Melissa surpresos.
[Mel] Desculpe, estou nervosa.
Os dois deram uma risada descontraída.
[Sam] Sério, gente, como vamos fazer? Três semanas passam voando e na outra é a apresentação de Hakagure.
[Mel] A apresentação da academia não me preocupa muito, o prof. Elphin disse que quase ninguém aparece.
[Josh] Isso foi bem direto. A verdade dóóóiii…
[Sam] Mas isso não significa que você possa fazer qualquer coisa. Se não for incrivelmente bom o clube vai te estraçalhar…
[Mel] Tudo bem, não se preocupe. Mas, e vocês, como pretendem organizar as duas coisas?
[Josh] Acho que devíamos alugar as salas de música para a noite toda para ensaiarmos. Assim não chamaríamos a atenção de ninguém e teríamos a tarde livre para nossos ensaios pessoais. O que acham?
[Sam] Bem, nos livramos dos olhares maldosos. Mas… o que vamos tocar?
[Josh] Tenho algumas músicas compostas. Não é nada muito elaborado, mas acho que dá para o gasto.
[Mel] Eu e meu irmão compusemos algumas também, mas a maioria nunca chegamos a apresentar. Talvez tenha alguma coisa interessante lá no meio.
[Josh] Fechou!!! Assim que voltarmos à academia podemos tocar todas uns para os outros e escolher o que acham?
[Sam] Por mim, tudo bem.
[Mel] Por mim, não. Podemos deixar para amanhã pela manhã? Esta noite tenho um compromisso.
[Josh] Hã??!! O que pode ser mais importante que isso no momento? Não me diga que tem um encontro? Quem é, heim? Vai deixar ela escapar assim, Sam?
[Mel] Não é nada disso!!!! – Disse brava.
[Josh] Sei, sei… Vou ali dar uma olhadinha no cardápio.
Josh saiu como quem fosse deixar um casal conversar sozinho. E foi quase isso o que aconteceu, tirando o fato de que não eram um casal propriamente dito.
[Sam] Sei que não tenho nada a ver com isso mas… onde você vai? Não pode passar a noite fora da academia sem permissão.
[Mel] Bem, tecnicamente estarei dormindo, exceto que não estarei aqui. Preciso voltar a Tellius, o plano era ficar dez dias em cada lugar.
[Sam] Dez dias??? Lá??? Mas… é muito tempo…
[Mel] Não tanto. Assim como Shin Makoku, o tempo entre Tellius e a Terra passam de forma diferente quando se navega entre os mundos. Dez dias lá são dez horas aqui. Dez dias aqui são dez horas lá. Bem, talvez não tão certinho assim, mas é um valor aproximado.
[Sam] Então, teoricamente você só vai acordar um pouco mais tarde?
[Mel] Isso.
[Sam] Mas você disse que lá está em guerra.
[Mel] Sim, está.
[Sam] Mas pode ser perigoso, e se você se machucar?
[Mel] Ainda que em guerra, grande parte da população não é forte o suficiente para me ferir. A guerra está tomando rumos que preciso acompanhar. Não posso deixar que eles se matem. Afetaria o equilíbrio entre os mundos, além de ser muito cruel.
[Sam] Entendo… Tem certas horas que deve ser difícil ser governante…
[Mel] Várias horas…
Após o lanche, Joshua, Samuel e Melissa retornaram à Academia Hakagure. Mel passou a noite conversando com Colin e Ray que queriam saber todos os detalhes da saída dela com Samuel. Sam, por sua vez, observava o grupo de longe. Por volta das dez da noite, todos voltaram aos seus dormitórios. E Melissa retornou a Tellius.
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4. O Clube de Música
A manhã seguinte ao encontro com Sam fora tranqüilo, com exceção do interrogatório de Colin e Ray. Ambos não se conformavam que com a nova amizade de Melissa.
- Ele nunca, nunca conversa com garotas por muito tempo. Impressionante! – Disse Ray.
- Isso é verdade. Aquele cara é o recorde em dispensar as apaixonadinhas. – Concordou Colin – O que será que deu nele?
- Eu não sou uma apaixonadinha!!!! – Expressou Melissa irritada – Já disse, nossas famílias são conhecidas de gerações, nossos sobrenomes são comuns nas rodas sociais, mas nunca tínhamos nos visto. Ele só queria conversar longe dos olhos curiosos.
Os olhares maldosos das garotas perseguiu Melissa durante as aulas e nos corredores não ajudaram muito. Oito dias se passaram desde que chegara à Academia Hakagure e rapidamente deixou de ser a graciosa transferida para se tornar alvo de inveja alheia. O término das aulas foi recebido com muito prazer e Mel se preparou para a primeira reunião no clube de música, mas definitivamente não foi tão calorosa quanto ela esperava.
Melissa esperou estar exatamente na hora para ir para a sala de música, assim não se sentiria isolada em meio a tantas pessoas que desconhecia. Ao abrir a porta, encontrou o prof. Elphin, um belo homem alto, com cabelos longos e louros, cercado por outros sete alunos. O gentil professor sorriu e indicou uma cadeira vazia na roda que fizera ao redor dele para que ela se sentasse. Mel seguiu sem olhar para os lados, não sabia por que estava envergonhada, apenas estava.
- Muito bem! – Disse o professor – Antes de mais nada, quero apresentar a nova integrante do clube de música, Melissa Summers. Melissa veio transferida do Instituto Timely de Paris e recebeu o consentimento do diretor em participar do clube, mesmo sendo metade do trimestre.
Melissa sorriu timidamente a todos, mas apenas alguns a cumprimentaram de volta. O rapaz sentado ao lado do professor foi o único a dizer algo: – Seja bem vinda, Melissa! Se tiver dúvidas, e eu sei que terá, pode falar comigo! – Mel se virou para agradecer e reconheceu o rapaz, era Sam. Isso aliviou um pouco a tensão que ela sentia na sala. O professor continuou.
- Então… A primeira das quatro apresentações deste ano será daqui há um mês, portanto vamos dar uma pausa nos nossos encontros tradicionais para vocês poderem ensaiar. A temática da apresentação deste semestre será “Intuição”, vocês podem escolher qualquer composição com esta temática. O esquema é o mesmo de sempre, serão oito apresentações individuais e uma em grupo.
- Peraí!!!! – Gritaram juntos um rapaz e uma garota de cabelos pretos que aparentavam ser irmãos – Essa garota entrou hoje e vai participar com a gente? Isso é injusto!!!
- Concordo, concordo! – Disseram alguns.
- Bem, ainda falta um mês, acho que dá tempo o suficiente para a nova aluna se adaptar. – Defendeu o professor gentilmente.
- Não mesmo!!!! Quem ela pensa que é para entrar assim no Clube, sem fazer teste nenhum e ainda mais querer participar da apresentação de fim de trimestre? Para entrar aqui tem que mostrar capacidade!!! Já negamos muita gente, essa garota pode diminuir drasticamente a qualidade dos nossos concertos!!! Não é só porque o diretor indicou que temos que aceitar sem pestanejar. – Reclamou uma garota de aparência gótica.
Todos olharam uns para os outros. Melissa ficou chocada com o que vira, estava acostumada a ser discriminada, mas aquilo era um absurdo, nem deram a chance dela se expressar. Percebendo que se falasse algo iria piorar a situação, ela apenas se afundou na cadeira e se pôs a escutar. Sam cochichou algo com o professor, que concordou rapidamente, se virou para Melissa e disse:
- Desculpe por isso, moça. Não se importaria de apresentar algo, apenas para o grupo ficar mais confiante?
- Não, senhor! O que deseja que eu apresente? – Perguntou Melissa humildemente.
- O que desejar. – Respondeu o professor sem graça.
Melissa se levantou e pegou um violão que estava cuidadosamente apoiado em uma das laterais as sala. Prof Elphin fez sinal a um rapaz de cabelos curtos, meio loiro, meio moreno e ele pegou outro violão que estava atrás dele. Melissa pensou em dizer algo antes de começar, mas desistiu rapidamente.
Ao terminar toda a turma olhava atenciosamente para ela, com uma expressão meio horrorizada.
- O que foi? – Perguntou realmente sem entender o que acontecia.
- Bem… é… é só que… – Tentou responder uma pequena garota loirinha, que segurava firmemente um trompete.
- Isso é uma escola séria!!! – Exclamou a garota gótica com autoridade – Música popular qualquer idiota faz.
Alguns da turma começaram a rir, Sam apenas abaixou a cabeça. Irritada, Melissa colocou o violão no lugar e disse alto para todos escutarem, enquanto caminhava em direção ao piano.
- Se era música clássica que queriam, dissesse no início!
“Ahhh! Eles acham que realmente vão me deixar longe da música? Nem pensar! Só porque eles querem… Aquela garota vai ver quem é a novata inexperiente.” Ela se sentou irritada ao piano, estava cansada dos olhares e críticas de pessoas que nem a conhecia e por motivos imbecis que sentira a manhã inteira, era a hora de mostrar que podia fazer algo. Iniciou a “Appassionata” de Beethoven antes que qualquer pessoa pudesse dizer algo a mais.
http://www.youtube.com/watch?v=xlcVu8SLDdo&feature=fvw
O grupo permaneceu em silêncio, observando a jovem tocar sem nenhuma referência e, possivelmente, sem erros também. Melissa, irritada, terminou a música, se voltou para o grupo e disse com um sorriso falso:
- Bem, piano não é lá meu forte, meu professor me fez aprender apenas como referência. Mas, como minha mudança não terminou de chegar, estou sem meu violino. Mas acho que deu para mostrar que conheço um pouquinho de música.
O restante da reunião do grupo foi bastante confusa. Prof. Elphin, a garota loira, o rapaz de cabelos confusos e uma morena que tocava flauta apoiaram Melissa e conversaram animadamente com ela, contando o que acontecera nas reuniões dos últimos dois meses e como funcionavam as quatro apresentações. Os gêmeos, a gótica e, para a surpresa de Melissa, Sam, não lhe dirigiram a palavra.
O sol já começava a se pôr quando a reunião do clube acabou. Era o fim do nono dia, no décimo Melissa precisaria voltar para Tellius, tinha que seguir tudo conforme o planejado. Durante o jantar, Melissa contou a Colin e Ray como fora a primeira reunião no Clube de Música, e eles não pareceram muito surpresos.
[Colin] Sinceramente, a única pessoa que presta ali é o Prof. Elphin. O resto são um bando de esnobes que acham que tem o rei na barriga só porque tem um talento mais visível.
[Ray] Exagerado… Mas você detonou, amiga! Eu não tinha idéia de que você manjava tanto assim. Aposto que deixou todo mundo de queixo caído.
[Colin] Claro que deixou, metade até conversou com ela. Mas, sem querer parecer chato, só fizeram amizade com você porque você tocou Beethoven de olhos fechados, se não te escorraçaram de lá como fizeram com tantos outros.
Melissa havia percebido que o Clube de Música já havia assustado muitos alunos antes, e isso a incomodara.
[Mel] Expulsaram pessoas de lá?
[Colin] Nós do Conselho Estudantil estamos até acostumados com todo início de ano ter guerras por causa do Clube de Música. Essa mania de só os super músicos tem lugar deixa muita gente indignada, mas é parte da tradição já. Me surpreendo que você tenha conseguido entrar.
[Mel] Pela forma que vocês colocam, eu também…
Após o jantar, os três voltaram aos dormitórios. Melissa só pensava que, no dia seguinte, precisaria comprar um bom violino e deixar na escola, assim não haveria problemas se o violino de sempre fosse avariado em Tellius ou ela esquecesse em qualquer outro lugar. Ao entrar no quarto, percebeu que tinha visita, Sam estava sentado na cama observando um espelho de mão.
- Cuidado com isso, é um item mágico, pode levá-lo a outro mundo.
- É assim que você viaja?
- Não, tenho meus próprios poderes, ele ajuda quando preciso levar ou trazer alguém comigo. O que faz aqui? Esse é o dormitório feminino.
- Aquilo foi desnecessário, no Clube de Música. – Disse Sam lembrando-se que estava bravo.
- Aquilo o quê?
- Aquela exibição toda. Você tem uns 100 anos de experiência a mais que eles e ainda assim tomou uma atitude infantil daquela? O que estava tentando provar?
- Heyyy! Para os níveis de um mazoku eu tenho 85 anos. E isso também não conta porque vivi mais tempo como humana do que como mazoku…
- Não mude de assunto! – Exclamou Sam realmente bravo.
- Heyyy!!! Calma aí nervosinho… Quem deveria estar incomodada com a situação sou eu. O que vocês pensam que é a música? Que palhaçada é aquela de que música popular não é bom o suficiente?
- Aqui é Hakagure. Esta academia forma futura elite mundial. Você realmente esperava que eles fosse se empolgar com Guns and Roses?
- Não importa a música, importa a sensação que ela transmite…
Sam ficou em silêncio, Melissa falara muito baixo e ele percebeu que talvez tivesse exagerado.
- O que a música representa para você, Sam?
- Não sei… – Respondeu seguindo-a em direção à sacada – Acho que a música é onde relaxo, um entretenimento para a alma.
- Para mim e meu irmão, a música era a única coisa que podíamos fazer sozinhos e pelo nosso prazer… Sempre cheios de responsabilidades, sempre correndo para salvar o mundo… A única coisa legítima que eu e Maruh temos é nossa música, mas ainda assim quase sempre abrimos mão dela por não ser prioridade. Acha mesmo, que num lugar pacífico como esse eu ia deixar de me divertir com o que mais amo por causa de um bando de esnobes que se acham os senhores da verdade? Eles tratam a música como um símbolo de status e poder, isso é inadmissível. Esse lugar é tão pacífico e ainda assim esconde faces tão horríveis… Eu cheguei quieta, mas logo percebi que aquilo é um campo minado. Essa escola quase toda é…
Sam ficou encostado do lado de dentro, escutando e refletindo.
- Arrependida de vir para cá?
- Não… Só não estou acostumada com esse tipo de gente. Um dia eles te amam sem motivo, no outro te odeiam porque imaginam coisas que nem sabem se são reais… É tão… fútil… Pior é que é divertidamente fútil.
- Me desculpe, eu exagerei. – Disse Sam olhando para o teto – Estou aqui há mais de um ano, acho que me deixei levar pelo jeito que as coisas são. Você tem razão. Mas… o que vai fazer agora?
- Bom, a idéia era descansar para amanhã acordar cedo e comprar um violino novo, pelo visto vou precisar mais dele do que imagino.
Sam sorriu para Melissa enquanto ela entrava.
- Bom, eu poderia então te acompanhar até à cidade como forma de um pedido oficial de perdão pela minha falta de sensibilidade? Conheço uma loja ótima de instrumentos musicais.
- Convite aceito!!!
Sam saiu pela sacada tão furtivamente quanto possivelmente teria entrado. Melissa se deitou relaxada, afinal o dia, de alguma forma, terminara bem.
3. Encontro noturno
A aula seguinte foi mais terrivelmente demorada que qualquer outra. Assim que terminou, o professor mal tinha saído da sala quando Sam entrou. Por algum motivo a presença dele paralisou toda a sala. O rapaz caminhou até a carteira de Mel, deixou um papel dobrado na mesa dela e saiu sem dizer uma palavra. Melissa ficou observando aquela cena e logo toda a sala olhava para ela. Colin ia perguntar o que fora aquilo, mas o professor seguinte entrou na sala e o impediu. Quando todos se concentravam na aula, Mel abriu o bilhete e leu “Me encontre às 20h na sala de artes”. Ray já havia contado que a sala de artes funcionava até às 18h por causa da luz. Era perfeita para dois seres de outro mundo se encontrar. Para Melissa a tarde foi incrivelmente longa.
Durante o jantar, Ray e Colin encheram Mel de perguntas sobre Sam. Ela contou tudo o que acontecera no intervalo, tudo menos a parte de que os dois não pertenciam àquele lugar. Ray e Colin estavam curiosos para saber o que Sam queria com Mel, curiosos por motivos diferentes.
- Ele é tão incrível!!!! – Dizia Ray animada – Sempre super educado e charmoso. Ele toca flauta, violino, piano, guitarra e bateria. Será que é isso? Será que ele sabe que você está interessada no clube de música? Dizem que ele é o melhor atleta do clube de esgrima, não sei por que ele não é o capitão do time…
- Garotas são muito cegas! – Contestou Colin nervoso – Não caia na dele, Mel. Ele se faz de bonzinho, mas não é nada disso. Uma arrogância sem limite, sempre se achando o maioral. E é um delinqüente. Ano passado ele se meteu brigou com quase todo clube de karatê e judô.
- E derrotou todos eles! – Interrompeu Ray – Mas aquilo foi legítima defesa. Os garotos das artes marciais estavam só com inveja…
Ray e Colin discutiram por causa de Sam por todo o jantar. Mel sabia que provavelmente os dois tinham razão. Sam era um mazoku, era normal os mazokus se destacarem por sua beleza. Por ser de uma família nobre, certamente ele possuía uma boa educação, conhecimento apurado das artes e técnicas militares. Era quase óbvio que atrairia a atenção das garotas e desprezo por parte de vários rapazes. Mas a pergunta era… o que um mazoku fazia lá?
A sala de artes estava apagada quando Melissa chegou, mas ao abrir a porta ela viu a silhueta de Samuel iluminada pelo luar. Ela entrou, fechou a porta atrás de si e seguiu em direção do rapaz.
- Não sei se foi um convite ou uma convocação, mas aqui estou. – Disse a jovem.
- Perdão. Não tive a intenção de ser rude, alteza. – Respondeu o rapaz sem olhar a ela diretamente.
- Ok! Vamos deixar algumas coisas claras aqui. Um: Estamos na Terra, títulos não valem nada aqui, então pode parar de frescura. Dois: Nada de tratamentos especiais nem intervenções políticas, não vou ser garota de recados entre Shin Makoku e Sphere…
- Nunca tive essa intenção!!! Só… fiquei surpreso… um pouco desnorteado… – Disse o rapaz voltando-se para Mel vagarosamente.
- Eu também! – Assumiu a jovem acalmando o ritmo- Você é a cara do seu tio! O que um nobre mazoku faz na Terra?
- É… quase uma missão…
- Suponho que você não possa revelar…
- Sim… mas também nunca pensamos que haveria outro de nós aqui… Minha vez de perguntar, o que uma nobre como você faz na Terra?
- Huuummm… Isso seria segredo também, mas na verdade não me importo nada em revelar… – Disse Mel para a surpresa de Sam – Não sei até onde você conhece a história dos Villeforte, talvez bastante porque me chamou de “alteza”, mas enfim… Os Villeforte se separaram de Shin Makoku quando eu e meu irmão nascemos. Nosso pai não é mazoku, ele é um humano. A grande nobreza se negava a aceitar herdeiros das Casas de Shin Makoku de origem mestiça, por isso minha mãe resolveu romper a aliança e fundar Sphere livre.
- Conheço essa história. Meu avô contava com grande pesar. Dizia que o orgulho mazoku não agradava o Rei Original.
- O que possivelmente ninguém sabe é que meu pai é um humano da Terra.
- Isso é novidade… – Exclamou o jovem surpreso e finalmente encarando Melissa.
- A tecnologia do meu pai, unida à magia da minha mãe, permitiu que eu e meu irmão pudéssemos viver em ambos os mundos. Claro que não foi muito fácil e com a guerra de vinte anos atrás tudo mudou. Quando meu irmão assumiu a coroa, ele ficou mais distante da Terra. Para facilitar os contatos de Sphere com os mundos exteriores, colocamos algumas pessoas- chave em cada lugar, pessoas de maior confiança do meu irmão e que são divulgadas como se fossem senhores de Sphere. Eu faço parte deste grupo, posso transitar entre Sphere, a Terra e um lugar chamado Tellius. Passo muito mais tempo na Terra do que nos outros lugares, e até semana passada eu estava na América. Por algum motivo, não sei qual, meu pai quis me transferir para cá e eu vim. Alguma coisa neste lugar chamou a atenção dele. Por isso estou aqui.
Sam ficou confuso por um tempo, não sabia o que fazer com tanta informação. Permaneceu alguns minutos em silêncio mas, por fim, perguntou:
- Por que me contou tudo isso tão tranquilamente? Por que não inventou uma desculpa?
- Pra que? – Perguntou Melissa sorrindo – Se vamos conviver cerca de dois anos juntos na Terra, se vamos guardar segredo da origem um do outro, qual razão teria de não dizer a verdade? De nada adianta esconder algo trivial como uma identidade que você descobriria na primeira viagem a Shin Makoku. Além do mais, conheço várias histórias da família Christ, sei bem que são muito honrados. Você não vai me expor, não precisa disso.
- Garota… não sei se você é tonta ou sábia demais!!! – Disse Sam finalmente mostrando um grande sorriso – Gostei de você! Gostei mesmo!
- Esta aí uma coisa que não costumo escutar vindo de um mazoku! Algo mais que possa te servir, vossa excelência sir Von Christ?
- Hahahhaha!!! Sem moralidades… Sam, apenas Sam… Você… bem… poderia não ficar brava de eu não revelar minhas razões? Não tenho certeza de como isso seria recebido, sabe…
- Claro que não me incomodo! Eu que sou a tonta aqui. – Respondeu sorrindo.
Os dois deixaram a sala de artes e seguiram de volta aos dormitórios. Como o bom cavalheiro que era, Sam deixou Mel na porta do dormitório feminino, o que chamou a atenção de muitas garotas que começaram a olhar torto para Melissa. Sem se importar com os olhares curiosos, a jovem seguiu para seu quarto, feliz por ter feito um novo amigo, ao menos um pouco parecido com ela.
2. Sam
Melissa passou o domingo com Colin e Ray conhecendo as salas de música e esportes e escutando histórias que envolviam os clubes. No dia seguinte ela acordou bem cedo, vestiu o novo uniforme e se preparou para a nova rotina. O coração da jovem já estava mais tranqüilo depois do leve final de semana, ela era capaz de discernir um pouco melhor, pensar um pouco mais sobre o que faria ao retornar para Tellius, mas ainda não tinha idéia de como iria proteger duas crianças de um rei malvado e seu exército. Ela caminhava pelo longo caminho de cerejeiras entre os dormitórios e os prédios das aulas teóricas, quando notou a bela vista que podia ver da cidade abaixo. Entre os pensamentos de guerra de Tellius e a calmaria de Hakagure, Melissa parou para observar a paisagem.
- Como será minha temporada neste lugar? Essa paz é maravilhosa… Mas tudo um dia tem que mudar… Elas sempre mudam… As coisas felizes e as coisas divertidas… tudo… muda… Mesmo assim, deveria me apegar a esse lugar? – Dizia a si mesma.
- Não é só encontrar? – Melissa escutou uma voz masculina ao lado dela.
A jovem se virou, surpreendida pelo momento de fraqueza que tinha exteriorizado. Assustada por ter sido descoberta. Os olhos da garota se depararam com um belo rapaz mais alto que ela, aproximadamente da mesma idade, com longos cabelos e olhos cor de ametista, assim como os olhos dela. “Günter?” – Pensou – “Não, impressão minha, deve ser bem mais novo que ele.”
- Quando tudo mudar, não é só encontrar as próximas coisas felizes e divertidas? – Continuou o rapaz encarando-a – Vem, vamos nos atrasar!
Melissa não disse nada, nem o rapaz dirigiu-lhe a palavra durante o longo caminho até o prédio. As aulas teóricas foram entediantes como quase sempre. O pai de Melissa sempre a obrigava a estudar quando viajavam entre os mundos, então constantemente ela ficava além dos outros alunos. Era injusto, ela sabia, mas indiscutível. Com o tempo ela se acostumou a fazer isso sozinha, sempre que tinha um tempo livre estava com um livro na mão. Mas, por esta ser uma escola deveras forte, esperava que fosse ter dificuldades em breve, isso a incentivava.
Alguns dias depois, Melissa estava lanchando embaixo de uma árvore, quando o misterioso rapaz tornou a aparecer.
- Yo, está sozinha? – Perguntou ao se aproximar – Não deveria estar na sala do conselho com seus amigos?
Melissa olhou para o rapaz com uma mistura de curiosidade e desaprovação. Como é que ele sabia que ela costumava lanchar na sala do Conselho Estudantil com Ray e Colin? E o que ele tinha a ver com isso? Mas, evitando ser grosseira logo de cara, ela respondeu:
- Está tendo reunião entre o conselho e os representantes de sala neste momento.
- Quer dizer que você não é um daqueles super burocratas escolares? Estou surpreso! Nunca tinha te visto até essa semana.
- E essa foi a primeira conclusão que você tirou? Impressionante… Não chegou a pensar que nunca me viu antes por que eu não existia?
- Como?
- Me transferi para este lugar semana passada. Não viu o jornal da escola? Eles me perseguiram até me obrigarem a dar entrevista. A parte boa é que me deixaram em paz depois disso. Sem mais idiotas me pajeando para arrumar assunto e fazer fofocas por aí…
O rapaz nada disse, apenas continuou olhando.
- Me desculpe… Estou sendo grosseira com você… Falando essas coisas para alguém que acabei de conhecer…
- Hahahahaha!!! Gostei de você! Sem rodeios e sem frescuras. Nesta academia tem muita gente rica, é difícil encontrar alguém sincero assim! – Continuou o rapaz sorrindo e finalmente sentando-se ao lado dela – Então… É por isso que estava falando aquelas coisas confusas? Você costuma se transferir bastante e por isso tem medo de criar laços aqui?
- Bingo!
- Garota burra! Isso só vai te fazer infeliz onde quer que você vá. Também não sou daqui, quando terminar os estudos provavelmente nunca mais verei as pessoas que hoje estão ao meu redor. Mas isso não me deixa deprimido, ao contrário, quero reunir o máximo de memórias e experiências boas e poder transmiti-las a todas as pessoas que um dia farão parte da minha nova vida.
Melissa ficou olhando fixamente para o rapaz. Ele tinha razão, ela sabia que tinha. Ela sempre viveu em meio de conflitos que estava com medo de ser feliz em um lugar tão pacífico como este.
- Me desculpe, isso pareceu um sermão né? – Falou o rapaz sem graça.
- Não, de jeito nenhum, acho que eu precisava ouvir isso. Obrigada! – Respondeu a garota sorrindo enquanto o sinal tocava os avisando do fim do intervalo.
- Bom, hora de ir! A propósito, sou Samuel Von Christ, da turma D, mas pode me chamar de Sam.
- Sou Melissa Summers, da turma B, mas pode me chamar de Mel. – Disse um pouco perplexa. Ele se parecia com Günter, e tinha o mesmo sobrenome, mas não era possível, um mazoku na Terra, era absurdo demais… A cabeça da jovem rodou por um segundo, mas ela soltou logo em seguida – Melissa Von Villeforte Summers!
Desta vez foi a cabeça de Sam que rodou. Ele estava saindo mas virou-se e se aproximou dela. Visivelmente surpreso ele disse baixinho:
- Você é uma herdeira de Sphere?
- Pelo visto você é mesmo parente do Günter. – Sorriu.
- Günter é meu tio.
- Erthian era minha mãe.
- O que faz aqui?
- Pergunto o mesmo.
Os dois continuaram a se encarar, sem saber o que dizer um ao outro, até que alguém gritou ao fundo: Christ! Summers! Acabou intervalo! Mel sorriu para Sam uma última vez e saiu correndo para dentro do prédio.
1. Reencontro
Na manhã seguinte, Melissa tomava café da manhã tranquilamente enquanto consultava o mapa da cidade, quando Colin apareceu.
- Bom dia, Mel! Sozinha por aqui?
- Bom dia, Colin! Sim, como acordei cedo achei melhor não incomodar ninguém. – Respondeu enquanto fechava o mapa.
- Pretende dar uma volta na cidade?
- Sim! Preciso comprar um celular para me comunicar daqui, deixei o meu na França. Também pensei em visitar um velho amigo do meu pai em Namimori, fica apenas há algumas estações de trem daqui, não é?
- É sim! Mas como hoje é sábado tem pouco transporte público. Posso te dar uma carona, se quiser!
- Ah, não precisa se dar todo esse trabalho…
- Não vai ser trabalho algum! Também vou para a cidade, vou passar o dia lá. Posso te levar para comprar o celular, a loja fica bem perto da estação. Depois disso a gente se fala e combina de voltar! – O rapaz ofereceu-se sorridente.
Os dois saíram com a moto logo após o café da manhã, despertando alguns olhares curiosos de vários alunos.
A viagem de trem até Namimori fora tranqüila, em três anos a cidade pouco mudara, o que facilitou bastante para Melissa encontrar o restaurante que procurava. Namimori era uma cidade pacífica, uma típica cidade de interior com casas térreas, bairros bem distribuídos e moradores educados. Melissa sempre gostou de Namimori, lá ela sentia-se numa cidade de contos de fadas, onde os problemas nunca chegavam. Após uma curta caminhada, chegou ao seu destino, restaurante do sensei Yamamoto.
A jovem entrou no balcão do restaurante vazio, pois faltava ainda uma hora para o início do almoço, e dirigiu a palavra ao cozinheiro que estava de costas: – Hummmm… esse peixe não me parece estar fresco. – Melissa sabia que o orgulho do senhor Yamamoto era servir os sushis mais frescos da região, isso realmente chamaria sua atenção.
- Olha dona! – Disse ele ficando a faca na tábua de madeira – Aqui não entra…. Melissa-chan???
- Olá Yamamoto-sensei! Há quanto tempo!!! – Respondeu sorrindo.
Melissa ajudou o senhor Yamamoto a servir os clientes no restaurante e depois, na limpeza após o almoço, conversaram bastante sobre os acontecimentos dos últimos três anos. Takeshi, o filho do senhor Yamamoto, dois anos mais novo que Melissa, estava no último ano do Ensino Fundamental e se destacava muito nos esportes, principalmente no baseball, a única decepção do pai era o filho ter desistido de treinar kendô. Durante o restante da tarde os dois treinaram kendô, para recordar os velhos tempos. Há muitos anos Melissa não usava aquela técnica, muito mais do que os três que o senhor Yamamoto se recordava. Foi muito bom para ela, concentração, equilíbrio, disciplina, sensações que faltavam no coração da jovem para mantê-la focada após o assassinato de Greil e as mudanças que ela sabia que ocorreriam em Tellius por causa disso. Foi um treino difícil, senhor Yamamoto percebeu que a jovem precisava dele mais do que ela própria imaginava e a fez prometer que voltaria mais vezes para treinar mais. O sol já começava a se esconder e o senhor Yamamoto ia começar a preparar um chá quando Takeshi chegou.
- Tadaima!!! – Anunciou o jovem entrando em casa com as roupas sujas e pequenos arranhões.
- Takeshi!!! – Gritou o pai em represália – Por onde esteve? Você não ia estudar na casa de um amigo?
- Eu fui, mas as crianças do Tsuna tem brincadeiras que explodem! Opa, temos visita, me dá um minuto que eu já desço!
Senhor Yamamoto voltou bravo para a cozinha, enquanto Takeshi subiu as escadas, tomou um banho apressado e voltou correndo.
[Takeshi] Me desculpe! – Disse desajeitado – Eu não estava muito apresentável!
- Esse menino não pára!!! – Exclamou o pai com ar de severidade enquanto colocava a mesa.
[Melissa] Está tudo bem, Yamamoto-sensei, ele está sempre tão cheio de energia!!! - Disse sorrindo – Mas, o que quis dizer com brincadeiras que explodem, Takeshi-kun?
[Takeshi] – Ahhh aquilo! Um colega da minha sala, o Tsuna, inventou uma brincadeira de máfia que trouxe várias pessoas únicas ao lado dele. Tem um bebê de terno com armas de brinquedo, outro que sempre se fantasia de vaca, outro colega de sala que sempre tem fogos de artifício, a irmã dele que faz umas comidas duvidosas e agora apareceu outro bebê que tem algum brinquedo que faz uma graaande explosão, é divertido!
- E a lição de casa, Takeshi??? – Indagou o pai, bravo.
[Takeshi] Nós terminamos, não se preocupe. Gokudera-kun é bastante inteligente!
[Melissa] Gokudera? Hayato Gokudera? Hurricane Bomb?
[Takeshi] Esse mesmo! Você o conhece?
[Melissa] Já cruzei com ele uma vez, mas foi na Itália. Ele está no Japão?
[Takeshi] Que conhecidência! Ele está morando aqui em Namimori! Você conhece a irmã dele também?
[Melissa] Sim!!! Doku Sasori Bianchi! Nunca coma nada que ela faça! Aquela garota é puro veneno… Mas… estranho… Eu achava que a Bianchi estava trabalhando na Itália com o Reborn…
[Takeshi] Hã! Você conhece a criança do Tsuna também? Que mundo pequeno!!!!!
[Melissa] Peraí!!! Takeshi… Esse Tsuna que você fala… o nome dele é Tsunayoshi Sawada?
[Takeshi] É sim! Você também conhece ele?
[Melissa] Não… Mas o pai dele é amigo do meu pai. Agora entendi… Reborn dele estar aqui para ser o professor particular do próximo Vongola. “Então o 9º finalmente se decidiu… Se Reborn está aqui é uma questão de tempo até que a batalha comece… Acho que entendi porque me transferiram para cá…”
[Takeshi] Hããã??!!! Você também conhece o jogo da Máfia?
[Melissa] Sim!!! É bastante divertido!!! Eu jogava com o Reborn na Itália, mas lá ele ajudava a família Cavallone, o 10º Cavallone, Dino, talvez um dia você o conheça. Eu pertencia à família Villeforte, era a 3ª Villeforte. “Idiota pensa que isso é um jogo. Onde o Reborn está com a cabeça de envolver um tapado de fora como ele?” Me conta, quantas vezes vocês já jogaram?
Takeshi começou a contar a Melissa desde o dia que Tsuna apareceu de cueca pela primeira vez. Senhor Yamamoto, vendo o quanto os dois estavam entretidos, recolheu o chá e os deixou a sós conversando. Não tardou muito até que o celular de Melissa tocasse e Colin a chamasse de volta.
[Takeshi] Uauuu! Hakagure Academy!!! Impressionante, Mel-sempai! Devem ter vários cursos diferentes!!!!
[Melissa] Tem, mas ainda estou na dúvida do que fazer. Não sei em que posso ser boa para escolher um clube…
[Takeshi] Hahahahaha!!! Deixa disso, essa é fácil! Música, ginástica artística, arco-e-flecha e kendô. Qualquer um deles que você entrar vai se dar muito bem!!!
Melissa sorriu para o rapaz. Ele percebeu em segundos o que ela passara a noite pensando. Ela se despediu de Takeshi e o senhor Yamamoto e deixou a promessa de que voltaria e passaria o feriado de Ano Novo com eles.
11. Luto
Rei Caineghis e Ranulf chegaram ao castelo real de Gallia ao amanhecer. Melissa estava sentada no alto da grande escadaria que dava para a entrada principal. Os dois se aproximaram e Caineghis tomou a palavra.
- Quando chegamos já era tarde demais. Salvamos o filho, mas não foi possível salvar o pai.
- Entendo. Agradeço assim mesmo, se não estivessem lá aquelas crianças estariam perdidas. Qual o próximo passo?
- Vou dar o dia de luto a eles. Ao cair da noite enviarei Lethe e Mordecai para guiá-los até aqui.
- Então tenho um dia para remontar estratégia. – Disse a jovem se levantando – Hoje a princesa de Crimea é toda sua. Volto amanhã ao amanhecer.
A garota desapareceu no ar, tão inexplicavelmente quanto o sumiço do Black Knight.
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No Castelo Gebal, o dia fora de grande pesar. Ao pôr-do-sol, somente Ike e Mist permaneciam diante do túmulo de Greil.
- … Pai! Isto não é um sonho, né? Isso… é tudo real. – Sussurrava Ike – Mist. O sol está se pondo, está começando a esfriar. Vem. Vamos.
- Oh… Ike… – As palavras saiam com dificuldade entre o choro da menina.
- Mist…
- Por quê???
- Eu estava ao lado dele, mas… não pude salvá-lo… me perdoe!
- Snifff…
- É… É tão irreal…
- Papai se foi… Papai se foi, Ike… E eu… Eu não… Não sei o que fazer…
- Não se preocupe, estou aqui. – Disse o irmão mais velho estendendo a mão para Mist levantar e encaminhando-a de volta ao castelo.
- Irmão…
- Eu vou liderar a companhia… no lugar do papai… vou proteger todos vocês. Você, a princesa… todo mundo. Vou proteger você. Você vai ver.
- Não… irmão… Ike… não…
- Mist?
- Eu não vou deixar… Não posso perder você. Você não vê? Se você partir, eu vou ficar sozinha no mundo… Não vou deixar.
- Eu não vou a lugar algum. Eu te prometo, Mist…
Ao entrarem no castelo, Rhys e Rolf levaram Mist para o quarto, enquanto Titania e Soren chamaram Ike para conversar.
- Ike… – Chamou Soren.
- Oh Ike… onde está Mist? – Perguntou Titania.
- Descansando no quarto dela. Rhys e Rolf estão com ela.
- Isso é bom… Ela precisa dormir. – Disse Titania – Ela passou por tanta coisa. Todos nós passamos… Você devia descansar também, Ike.
- Eu estou bem. Pesar não vai trazer meu pai de volta à vida. Sei que tenho sido um fardo para vocês dois, mas… Soren, Titania, preciso agradecer a vocês dois por ficarem aqui comigo.
- Não precisa… – Disse Soren.
- Realmente. Não se dê o trabalho. – Complementou Titania.
- Então… cadê todo mundo? – Perguntou Ike.
- Ike, pra dizer a verdade… – Titania tentou introduzir o assunto delicadamente, quando a porta se abriu mostrando a chegada dos irmãos Oscar e Boyd.
- Boyd e eu voltamos! – Anunciou Oscar.
- Como foi? – Perguntou Titania.
- Eu não posso acreditar!!!! – Respondeu Boyd exaltado de indignação – Eles simplesmente partiram, e sem olhar para trás! Malditos sem-coração! Nunca vou perdoar eles!
- Boyd? O que está acontecendo? – Perguntou Ike.
- Ike! Você está bem? – Perguntou Boyd se acalmando um pouco.
- Estou bem. Me diga o que está acontecendo. Comece a falar!
- Bem… huh… é… O que eu queria dizer é…. – Boyd se atrapalhava nas palavras. Não queria dar outra má notícia ao amigo. Não sabia como falar delicadamente.
- Shinon e Gatrie abandonaram o grupo. – Disse Soren sem rodeios.
- Soren! – Reprimiu Boyd.
- O que foi? Não temos nada a esconder, temos?
- Eles debandaram? Os dois? – Interrompeu Ike – Por que eles…. ah, entendo… eles partiram por minha causa, não é?
- Titania nos disse que você seria o novo comandante. – Respondeu Boyd – Shinon explodiu…. Ele e Gatrie partiram não faz muito tempo.
- Nós fomos atrás deles. – Completou Oscar – Tentamos conversar, mas foi uma perda de tempo.
- Todos nós sabíamos que Ike iria herdar a companhia. – Disse Soren – As coisas só aconteceram antes do que nós esperávamos. Esta foi a decisão de Greil. Se alguns de nós não estão satisfeitos com isso, não há motivos para impedir de abandonar. Se a preocupação estiver em perdermos força de luta, podemos solucionar facilmente aceitando novos membros ao grupo.
- Como você pode dizer isso? – Boyd se irritara novamente – Depois de todas as batalhas que passamos juntos, como pode dizer isso?
- Me perdoe, Ike. – Disse Titania ao lado dele – Não fui capaz de impedir nada disso…
- Não foi sua culpa, Titania. – Consolou Ike – Eles fizeram o que achavam que era certo. Eles não queriam arriscar a vida recebendo ordens de um comandante inexperiente.
- Ike! Não fale assim sobre si mesmo. – Retrucou Titania.
- Não estou dizendo isso para ganhar a piedade de ninguém. É a verdade. Mas, ainda assim, eu não tenho intenção de desistir do comando desta companhia.
- Ike? Então o que você vai… – Interrompeu Titania.
- Vou seguir os desejos do meu pai. Vou assumir o comando. Se todos vocês me aceitarem, isso é o que eu gostaria de fazer.
- Mas é claro! – Aprovou Titania de imediato.
- Eu também já me decidi. Já tinha decidido antes mesmo de tudo isso. – Disse Oscar.
- O quê? Então agora você quer que eu comece a te chamar de Chefe? – Perguntou Boyd brincando – É isso? Bom, acho que posso fazer isso. Chefe será!
- Eu também estou dentro. – Ofereceu-se Rhys que acabara de chegar – Sei que perdi a maior parte da conversa, mas tenho uma boa idéia sobre o que vocês estavam discutindo. Comandante Ike… É, soa legal dizer isso.
- E quanto a você, Soren? – Ike perguntou ao amigo mago.
- … Ike. Não tenho certeza se posso ser útil a vocês. – Respondeu Soren com sincera humildade – Que lugar poderia haver para uma pessoa como eu em uma companhia de mercenários?
- Você é tão estranho… – Respondeu Ike – Eu sempre dependi de você, não foi? Preciso do seu conhecimento tático. Preciso da sua objetividade. Você não vai me deixar, vai Soren?
- Não se preocupe. – Respondeu um pouco envergonhado – Estarei aqui, cuidando de você.
- Obrigado, a todos vocês. – Finalizou Ike – Sei que não sou experiente como a maioria de vocês. Eu vou cometer alguns erros, mas vou tentar não desapontá-los.
O grupo cumprimentou Ike satisfeito e se separou. Na sala principal permaneceram apenas Ike e Titania. Como novo comandante, haveria muitas coisas que Ike precisaria saber e decisões que precisaria tomar. Titania, por ser o braço direito de Greil, possuía conhecimento de quase todos os pontos que Ike precisaria gerenciar e logo começou a introduzir o assunto. Ike procurou prestar atenção a tudo que ela dizia, mas o cansaço começou a derrota-lo e ele só conseguiu compreender algumas questões relacionadas à finanças e que Titania havia feito um acordo com mercadores refugiados de dar-lhes segurança em troca de bons preços e manutenção nos armamentos. Com tanta coisa para pensar, Ike ordenou que Titania descansasse um pouco e permaneceu ali, perdido em seus pensamentos.
Uma nova realidade
Hakagure era uma ilha artificial conectada ao continente. Ela foi criada há 30 anos para receber talentosos jovens do mundo inteiro para estudar na famosa Hakagure Academy. Deste lugar deveria sair os futuros mundiais. Melissa fora convidada para preencher uma vaga na academia em nome do reino de Sphere. Normalmente ela estaria muito feliz em poder conviver como uma garota normal, mas naquele momento seus pensamentos estavam muito longe dalí.
“Francamente! Vou para Sphere pedir autorização para interferir diretamente no caso os órfãos de Greil e recebo a notícias de mudanças na Terra. Não entendi ainda o motivo de mudar de escola assim tão de repente. Sinceramente não sei onde estava com a cabeça quando aceitei essa proposta. Com tanta coisa acontecendo em Tellius, eu definitivamente não deveria estar perdendo tempo com situações cotidianas na Terra. Tudo bem, não estou perdendo tanto tempo assim, mas deveria estar me concentrando em como impedir uma guerra. Além do mais, que tipo de estudante estúpido se transfere no meio do semestre e em plena quinta-feira?” pensava Melissa enquanto descia do ônibus de viagem. A jovem observou a paisagem ao redor e viu a academia ao topo da ilha e começou a caminhar pelas ruas que levavam à grande subida “Ótimo! E nem posso me teleportar até lá!”
Ao parar um pouco para descansar, a jovem viu uma moto que passava rápido diminuir a velocidade e parar em frente a ela. Do veículo, um rapaz alto, de aproximadamente 16 anos, tirou o capacete e falou com ela sorrindo:
- Olá, Melissa Summers! Que cara desanimada! Aposto que está cansada!
- Er… um pouco. Não sabia que o ônibus passava tão longe.
- Não se surpreenda! No fim de semana ele passa mais longe…
- Er… desculpe por terem feito você vir me buscar… devo estar atrapalhando seu dia…
- Não se preocupe com isso, foi apenas um pedido do diretor. Além do mais, quase não temos alunos transferidos… Qualquer um ficaria curioso… Então, vamos indo? Algumas pessoas estão te aguardando…
- Claro, vamos sim!
Melissa subiu na garupa da motocicleta e, em alguns minutos estavam na famosa academia. O rapaz, que durante o caminho se apresentou como Colin Shimuzu a deixou na frente do dormitório feminino, onde uma garota alta, possivelmente do último ano, a aguardava na porta com expressão de sono.
- Bem-vinda a Hakagure, sou Mirie Nakajima, a líder do dormitório feminino. Seu quarto é o 420, aqui está a chave. Suas coisas já foram transportadas para lá. A partir das 18h o jantar está disponível na cafeteria. Se precisar de algo estarei no quarto 101 tirando um cochilo.
A líder do dormitório entregou a chave e saiu andando. Melissa estranhou o descaso da veterana, mas achou melhor assim. “Se ela for sossegada desta forma, não vai sentir minha ausência quando eu estiver viajando por outras dimensões” – pensou.
O quarto era bastante grande, considerando-se que era um dormitório estudantil. Havia uma cama, escrivaninha, guarda-roupa e uma pequena pia de cozinha com frigobar, ao lado uma porta que levava ao banheiro privativo e à frente outra que dava para uma sacada com um pequeno varal. Melissa foi até sacada e apreciou a vista do sol que se escondia atrás das montanhas do continente. “No primeiro final de semana livre quero aproveitar para visitar o senhor Yamamoto em Namimori. Que saudade da comida dele.” – pensou. A garota ficou durante quase todo o pôr-do-sol ali, apreciando a tranqüilidade do lugar. Depois voltou para o quarto, fechou a sacada, chamou seu báculo e pronunciou a ordem: No lugar! Logo as caixas de abriram sozinhas e a bagagem começou a preencher seus devidos lugares. Mas antes que pudesse terminar alguém bateu na porta. Melissa cessou a ordem silenciosamente, guardou o báculo e abriu a porta. Era uma jovem sorridente, sem uniforme.
- Oi! Sou sua vizinha, Rayanne Tengwar, mas pode me chamar de Ray! Você já jantou? Gostaria de companhia? Posso te apresentar o lugar!
- Eu adoraria!!! Espera só eu pegar um casaco?
- Claro! – Respondeu a menina olhando curiosamente pra dentro enquanto Melissa mexia em uma das malas abertas – Uauu! Você é rápida! Eu demorei uma semana para arrumar a minha mudança!
- Eu não sossego enquanto não tiver mais caixas. – Disse Melissa rindo – Vamos?
O caminho até a cafeteria foi curto. Ray parecia ser muito gentil e agradável. Ela não dava bola para os olhares curiosos dos colegas e falava bastante. As novas amigas se serviram e sentaram em uma mesa apenas para dois.
- Como está? – Perguntou Ray.
- Simplesmente delicioso! Obrigada pela indicação! – Agradeceu Melissa.
- Então, já sabe que disciplinas vai cursar?
- Ainda não, minha mudança de escola foi meio inesperada, não tive tempo de estudar o currículo, acho que vou dar uma olhada por aí amanhã, aí preparo meu horário e começo direitinho na segunda-feira.
- Boa idéia! Posso te ajudar a fazer um tour, você aceita?
- Aceito sim! Obrigada!
A noite seguiu tranqüila. Melissa não estava muito disposta a fazer amigos no primeiro dia e Ray garantiu para que ninguém tivesse abertura para atormentá-las. O dia seguinte foi bastante ocupado. Ray a levou para conhecer todos os ambientes, os clubes de arco e flecha, artes, trilha, natação, esgrima, tênis, tesouraria e, por fim, o conselho estudantil, liderado por Colin. Ao entrarem na sala do conselho, as duas, cansadas, caíram sentadas no sofá. Colin olhou espantado e pegou um pouco de água para as duas e Ray contou por onde andaram.
[Colin] Uma maratona e tanto vocês fizeram. Essa escola é muito grande, se não prestar atenção até eu me perco por aí. Não se preocupe Melissa, você pode ir se acostumando aos poucos.
[Ray] Você se perde porque não tem senso de direção, Colin!
[Colin] Heyyy!!!
[Ray] A academia é pequena, depois de hoje você já conhece pelo menos o rosto da maioria dos alunos. Matamos dois coelhos em um golpe só!
[Mel] Obrigada a vocês dois! Sinto que estou em boas mãos!